Dia Internacional da Mulher: 51 anos depois, o que comemorar — Por Adriana Diniz, jornalista

Imagem mostra Adriana Diniz, jornalista, colunista e repórter especial do Folha do Leste, autora do artigo sobre o Dia Internacional da Mulher, questiona no texto o que comemorar após 51 anos da ONU oficializar a data
A Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou o Dia Internacional da Mulher, em 1975, com o objetivo de estabelecer três pilares. Primeiramente, marcar o engajamento das mulheres na política. De igual forma, legitimar a luta pela igualdade de gênero. Por fim, para tomar posição contra à violência doméstica e a todos os meios de assédio. Mas, hoje, 51 anos depois, não há muito o que comemorar.
Acordamos todos os dias com números que tornam qualquer café da manhã indigesto: a cada 10 minutos uma mulher está sendo morta dentro do ambiente que deveria ser o mais seguro: o familiar. Ou seja, enquanto você lê este texto, outra mulher pode estar vivendo seus últimos minutos.
No Brasil não é muito diferente: em 2025, foram 1.518 mulheres vítimas de feminicídio no país. Quase quatro por dia. Isso significa que uma família é destruída a cada seis horas.
E, embora a Lei Maria da Penha tenha endurecido as penalidades contra abusadores, a mera expectativa de punição parece não ter o efeito de frear o número de casos, a ver pelas últimas notícias de feminicídio no país.
Diante de casos como o da mulher que foi atropelada e arrastada por quilômetros pelo namorado, em São Paulo, nos questionamos: “como mudar essa realidade?”, “como identificar um relacionamento tóxico antes de virar estatística?”.
Como a violência começa
A violência que termina em morte, geralmente começa muito antes.
Ela começa com o controle disfarçado de cuidado. Inicialmente, com a crítica constante travestida de “preocupação”. Depois, com o isolamento progressivo da família e dos amigos. Por último, a culpa plantada dia após dia.
Antes do empurrão, há o silêncio. Assim como antes do soco, há a desvalorização. Eis, então, o pior: antes da morte, há o medo.
A violência psicológica e emocional é mais difícil de identificar porque não deixa marcas visíveis. Não aparece no raio-X. Não vira manchete. Mas corrói por dentro. Tanto quanto os números que mostram como essa etapa invisível é devastadora.

A dimensão da violência
Em 2025, 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar. Isso representa 422 mulheres por hora, ou sete mulheres por minuto, aproximadamente.
Via de regra, há uma mulher violentada a cada poucos segundos.
O feminicídio é o ponto final dessas escaladas. Antes dele, existem milhares de agressões diárias que a sociedade aprendeu a relativizar.

Manipulação e gaslight
Costumo dizer que ninguém vem com uma placa na testa avisando “sou psicopata”.
Além disso, abusadores são extremamente envolventes no início da relação. Geralmente, interpretam um personagem, criando uma ilusão em torno de sua personalidade.
Eles também costumam ser muito bons em manipular, distorcer a realidade. Em síntese, tudo fazem de tudo para minimizar a violência. Sobretudo, quando praticam a pior das crueldades psicológicas, quando chegam ao extremo de culpar a vítima pelas agressões por elas sofridas ou pelos rompantes deles, fazendo com que a própria mulher duvide de si mesma.

Homem consegue destruir estima feminina e fazer com que mulher ainda se sinta culapa por sofrer agressões | Reprodução
Consequentemente, esses psicopatas impõem às mulheres um severo sentimento de impotência. Como resultado, eles conseguem seu objetivo maior: fazê-las sentir vergonha. Em suma, a vontade de contar para outras pessoas esbarra nos pensamentos sentimento de impotência: a vergonha, o medo da reação dele, do julgo alheio de quem tem uma boa percepção do agressor, de passar por louca. Afinal, ela, a vítima, provocou a ira dele.
É o chamado gaslight.
O aprendizado da tolerância
O cerne do problema é estrutural porque, durante gerações, mulheres mulheres foram ensinadas, doutrinadas, a tolerar. Tanto a perdoar o primeiro grito quanto a relevar o primeiro empurrão. Também, à acreditar que o amor transforma agressão em arrependimento. Entretanto, a verdade e o tempo mostram, de forma singular, que não transforma.
Se queremos interromper o ciclo, precisamos começar dentro de casa. Acima de tudo, ensinado nossos filhos que masculinidade não é agressividade. Que frustração se resolve com diálogo, não com imposição. Que emoção não é fraqueza.
Já às nossas filhas precisamos ensinar algo revolucionário: elas não precisam agradar o tempo todo, muito menos suportar desrespeito para manter um relacionamento. Que jamais devem se encolher para caber no ego de alguém.
O exemplo dentro de casa
Agora, o ensinamento mais importante que você pode dar a seus filhos é mostrar, na prática, o que não é tolerável num relacionamento. Se você fica numa relação abusiva para preservar seus filhos das dores do divórcio, você está ensinando eles a se relacionarem da mesma forma.
Dar um basta a uma relação tóxica é ensinar a seus filhos que eles não devem aceitar relacionamentos que machucam. Portanto, não basta você dizer que é errado. Porque se você permanece, você ensina que é normal, que é aceitável. E eles aprendem pelo exemplo!
Falta de apoio e barreiras institucionais
Muitas mulheres não conseguem sair de relações abusivas porque não encontram apoio nem no próprio núcleo familiar. Outras enfrentam descrédito quando procuram ajuda.

Saiba quem pode ouvir de verdade as vítimas de violência e onde, para que as mulheres deixem de se sentir conforme a foto mostra: menores | reprodução
Muitas vezes, nas próprias DEAMs (Delegacias Especializadas de Atendimento às Mulheres), nos deparamos com preconceito e com o corporativismo. Especialmente, quando o agressor é alguém influente ou pertence à corporação.
Ainda assim, existem caminhos, pois diversos institutos oferecem apoio psicológico e jurídico que podem ajudar. Neste artigo, separei algumas instituições confiáveis.
Essas portas existem. Mas precisam ser fortalecidas e, sobretudo, acessadas.
Independência financeira
Outro ponto essencial está na independência financeira. Quando uma mulher tem condições de se sustentar e sustentar seus filhos, ela não precisa permanecer em um relacionamento por medo da miséria.
Autonomia econômica é proteção
Todavia, independência financeira não resolve tudo. Há muitas mulheres bonitas, independentes e bem-sucedidas vivendo uma relação abusiva em silêncio.
Muitas permanecem por conta de ameaças envolvendo a guarda dos filhos e a partilha. Até porque a violência doméstica geralmente inclui violência financeira e patrimonial.
Muitos abusadores desviam dinheiro e bens familiares sem o conhecimento de suas companheiras, que se veem sem nada depois de anos de dedicação à família.
Violência contra a maternidade
Outros usam os filhos para atingir a companheira. Sequer realmente estão interessados em exercer a paternidade, mas os filhos viram trunfos para eles quando a mulher consegue sair de seus domínios.
Nesta fase, tem início outro tipo de artimanha: os abusos psicológicos Nunca hesitam em usar o Poder Judiciário, até mesmo litigando de má-fé. Transformam os filhos em peões e jogam sujo no tabuleiro da Justiça, para tentar tirar filhos da mãe. Quase sempre valendo-se da Lei de Alienação Parental, muitas vezes forjando provas.
Casos dessa natureza tem nome: violência vicária. Ocorrem quando o homem usa os filhos para atingir a ex da forma mais cruel possível: em sua maternidade.
O ápice dessa violência acaba estampado nas páginas policiais — quando o homem mata os filhos e se mata, punindo a mulher que o deixou com o pior castigo que uma mãe pode ter.
Violência jurídica
Nesses casos, a sociedade precisa se mobilizar para criar leis e jurisprudência que protejam mais essas mulheres após o divórcio, pois é sabido e notório que, quando não matam, os abusadores tentam perpetuar o ciclo de violência de outras formas.
A violência jurídica é arma mais usada pelos abusadores que têm algum conhecimento das leis e fácil acesso ao sistema judiciário — seja com recursos para contratar bons advogados, seja com ajuda de parentes ou amigos advogados.
A integração automática de processos que envolvam as mesmas partes seria uma solução para esses casos, mas também facilitar o acesso da Mulher ao sistema judiciário.
A solidão dentro da relação
E há, ainda, aquelas mulheres que permanecem em relações abusivas por dependência emocional, por medo da solidão, por acreditarem que não encontrarão outra chance de serem amadas.
A ironia é que muitas já estão sozinhas. Dividem a casa, mas não dividem respeito. Dormem ao lado de alguém, mas acordam sem apoio. Enfim, vivem uma prisão e não um relacionamento.
Luta antes do Luto
Neste Dia da Mulher, celebrar conquistas é necessário. Mas é urgente falar sobre o que ainda nos aprisiona.
Principalmente, sobre a violência, antes que ela escale ainda mais. Nesse sentido, também sobre as seguintes questões:
- Os sinais que são ignorados antes da violência física.
- Educação emocional antes do luto.
- Sistemas de apoio que acolham de verdade.
Nenhuma mulher deveria precisar morrer para que a sociedade finalmente a escute. Do mesmo modo que nenhuma mulher deveria se sentir sozinha enquanto ainda está viva.

Imagem mostra Adriana Diniz, jornalista, colunista e repórter especial do Folha do Leste, autora do artigo sobre o Dia Internacional da Mulher, questiona no no texto o que comemorar após 51 anos da ONU oficializar a data
Onde buscar ajuda no Estado do Rio de Janeiro
Se você ou alguém que você conhece está em situação de violência doméstica, procure apoio. A rede de atendimento oferece acolhimento psicológico, orientação jurídica e proteção.
Centros de Atendimento e Referência
Centro Especializado de Atendimento à Mulher Chiquinha Gonzaga
Rua Benedito Hipólito, 125 – Praça Onze – Centro – Rio de Janeiro
Tel.: (21) 2517-2726
Centro Integrado de Atendimento à Mulher (CIAM) Márcia Lyra
Rua Regente Feijó, 15 – Centro – Rio de Janeiro
Tel.: (21) 2332-7199 / 2332-7200
Casa da Mulher de Manguinhos
Av. Dom Hélder Câmara, 1184 – Casa de Tijolos
Tel.: (21) 2334-8913 / 2334-8914
Atendimento: segunda a quinta, das 9h às 17h
Centro de Referência de Mulheres da Maré Carminha Rosa
Rua 17, s/nº – Vila do João – Maré
Tel.: (21) 3104-9896 / 3104-5170
Funcionamento: segunda a quinta, das 9h às 16h
Centro de Referência para Mulheres Suely Souza de Almeida
Praça Jorge Machado Moreira, 100 – Cidade Universitária – Rio de Janeiro
Tel.: (21) 3938-3773 / 3938-3720
Organizações da Sociedade Civil
Movimento de Mulheres em São Gonçalo (apoio jurídico e psicossocial)
Atendimento a mulheres vítimas de violência doméstica com equipe multidisciplinar. Tel.: (21) 2606-5003 / (21) 98464-2179
E-mail: [email protected]
Endereço: Rua Rodrigues da Fonseca, 201 – Zé Garoto – São Gonçalo, RJ
Programa Justiceiras (apoio jurídico e emocional)
Rede voluntária nacional que oferece acolhimento jurídico e psicológico por meio de advogadas, psicólogas e assistentes sociais.
https://www.justiceiras.org.br/#ajuda
https://www.instagram.com/justiceirasoficial/
INCVF – Instituto Nacional de Combate à Violência Familiar
Atendimento gratuito (pro bono) com acolhimento, orientação jurídica e psicossocial, medidas protetivas e apoio em todo o país.
WhatsApp: (21) 98949-8778
Canais de Denúncia e Orientação
Disque Mulher
Tel.: (21) 2332-8249
Direitos da Mulher – Disque Alerj
0800 282 0119
E-mail: [email protected]
Disque Denúncia
Tel.: (21) 2253-1177
Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher
Gratuito, 24 horas, sigiloso.

























