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UFF e Ecofábrica da Mangueira desenvolvem tecnologia inédita com uso de óleo de cozinha

Parceria permitiu a criação do sabão ecológico Ômi. Foto: Divulgação.

Uma tecnologia inédita de biorremediação vem transformando um problema ambiental cotidiano em solução para o saneamento. Isso porque a Universidade Federal Fluminense (UFF) e o Instituto Singular Ideias Inovadoras (ISII), a partir do projeto Omìayê,  na comunidade da Mangueira, Zona Norte do Rio de Janeiro, criaram um item essencial para limpeza a partir do óleo de cozinha.

Com o intuito de ajudar o tratamento descentralizado do esgoto, ambas as instituições criaram o sabão ecológico Omì. O produto é feito partir do óleo usado de cozinha e conta com uma quantidade específica de microrganismos não patogênicos. São eles as bactérias do gênero Bacillus, levedura e lactobacilos, incorporados à formulação do produto para contribuir na biorremediação. O objetivo é o de reduzir a contaminação da água e de lençóis freáticos.

Pré-tratamento e filtragem

No processo, o  sabão passa por um processo rigoroso de pré-tratamento do óleo residual, que inclui filtragem mecânica e físico-química com carvão ativado, garantindo a estabilidade e qualidade do produto final. Após a saponificação, os microrganismos são incorporados por meio de tendências de proteção e encapsulamento, assegurando sua viabilidade até o momento do uso. Na prática, ao ser utilizado em pias, banheiros e áreas comuns, o sabão libera esses microrganismos. Na sequência, eles seguem pelas tubulações e redes de esgoto, acelerando a degradação da matéria orgânica, diminuindo odores e a carga poluidora que propaga doenças de veiculação hídrica. Esses microrganismos presentes reforçam a capacidade natural da água de decompor sujeiras, reduzir poluentes e aumentar os níveis de oxigênio.

Para Gabriel Pizoeiro, Diretor do Instituto Singular Ideias Inovadoras, o Projeto Omìayê representa a materialização do compromisso da organização com soluções que nascem do território e retornam ao território como transformação real:

O Omìayê sintetiza nossa visão de que a inovação social mais potente é aquela que respeita e fortalece o protagonismo comunitário. Quando desenvolvemos uma tecnologia de biorremediação com a UFF e a colocamos nas mãos de mulheres da Mangueira, estamos tratando esgoto e, simultaneamente, redistribuindo poder, conhecimento e dignidade. É esse o DNA do Instituto Singular: ciência aplicada que dialoga com justiça social e que reconhece que as comunidades são agentes ativos de sua própria transformação, e nunca receptoras passivas de soluções. O desafio do saneamento no Brasil exige mais do que grandes obras de infraestrutura. Precisamos de tecnologias sociais acessíveis, replicáveis e enraizadas nas realidades locais — e é isso que estamos provando ser possível na Mangueira”, afirmou.

Coleta de mais de 3 mil litros de óleo

Para fomentar a produção do Omì, houve a coleta de mais de 3.200 litros de óleo em pontos de coleta espalhados em comunidades. Além disso, o trabalho fez a busca pelo óleo em instituições de ensino, como a própria UFF, e  em demais projetos liderados pelo Instituto. Caso esse acontecesse o descarte incorreto deste volume, toda essa quantidade seria capaz de poluir 81 milhões de litros de água. Isso equivale a 32 piscinas olímpicas inteiras ou ao consumo mensal de cerca de 500 famílias.

Em vez de poluição, esse resíduo retorna ao território como solução ambiental. Na ecofábrica comunitária, na Mangueira, a reciclagem do óleo já resultou na produção de mais de três toneladas de sabão e centenas de litros de detergentes. Esse volume permitiu o tratamento de, aproximadamente, 660 mil litros de esgoto. Tal número é suficiente para encher 6.600 caixas d’água residenciais. Além disso, há o trabalho para um novo produto, um lava-roupas ecológico. Atualmente essa ideia está em fase de testes, mas já existe uma produção superior a 200 litros. A expectativa é de um potencial de tratar cerca de 20 mil litros adicionais de esgoto, ampliando a capacidade de resposta local aos problemas de saneamento.

Regeneração como diferencial

Para Bruno Pierri, Coordenador Executivo do projeto Omìayê, o diferencial do projeto está na lógica de regeneração territorial:

Na Mangueira, e ecofábrica comunitária opera um ciclo de regeneração em que o resíduo volta para o território como solução ambiental. O que antes seria um passivo, como o uso do óleo de cozinha, se transforma em um vetor de biorremediação distribuída. Ele é capaz de atuar diretamente nas redes de esgoto onde o poder público muitas vezes não consegue chegar. É uma tecnologia de baixo custo, baseada na ciência, mas profundamente enraizada na realidade da comunidade. Isso gera impacto ambiental, sanitário e social ao mesmo tempo”, afirmou.

Entre as principais vantagens da tecnologia estão o baixo custo de implementação, a sustentabilidade do processo, a eficácia contra poluentes complexos. Um exemplo disso é a redução de resíduos orgânicos e metais, causando menor impacto ambiental em comparação a métodos tradicionais. Por ser uma tecnologia social, realizada por mão de obra 100% feminina local, o modelo também fortalece a participação comunitária, promove a educação ambiental e contribui para a redução da exposição da população a ambientes contaminados, com reflexos diretos na diminuição de doenças de veiculação hídrica.

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