Há exatamente três semanas, o cinema brasileiro conquistou pela primeira vez uma estatueta do Oscar. A vitória foi motivo de festa no Brasil. Mas qual será o futuro da sétima arte nacional depois do feito inédito de 2 março deste ano? O portal Folha do Leste conversou com três pessoas da área a respeito. O diretor Luciano Sabino, e os produtores Diego Alexandre, que também trabalha com direção, e Alex Costa.
Todos exaltaram o feito do cinema brasileiro conquistar o maior prêmio cinematográfico do mundo. Entretanto, cada um tem um olhar sobre possíveis impactos a partir dessa vitória.
Diretor de “Os Suburbanos – O Filme”, Luciano Sabino exalta a vitória. Ele menciona a necessidade de legitimar a cultura brasileira e resgatar períodos difíceis da história. Além disso, ressalta o talento dos atores que atuaram no filme e manifesta esperança em um novo momento para a cultura brasileira.
Creio que o cinema nacional só vai crescer agora. Não tenho dúvidas que vai ter outro olhar não só dentro do próprio Brasil, com os brasileiros olhando cheios de orgulho e respeito, como terá maior autenticidade pras suas próprias histórias. O filme é cinema de altíssima qualidade, feita com com com uma história brasileira e, ao mesmo tempo, universal. Afinal, estamos num momento de grande perigo, no meu entender, para a própria democracia e a até a legitimidade humana. Não é possível viver sob a tutela de regime único absoluto. Não importa se é nos Estados Unidos, no Brasil ou na Hungria, seja onde for, tentaram e conseguiram em parte. Mas para a grande surpresa de muitos, houve essa vitória e, com isso, um resgate de um período terrível da história que gerou absurdos na vida de milhões de brasileiros por décadas”, opinou.

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Sabino acrescenta ter esperança que o mercado de streaming passe a olhar com mais atenção as produções brasileiras no futuro
Também torço para que essa conquista torne possível a cultura brasileira ter mais espaço na exibição, distribuição e em pagamento de direitos nas plataformas de streaming. Sei que é um mundo muito complexo, mas acredito que isso vá gerar efeitos práticos na indústria do cinema nacional. Esse prêmio foi para artistas tão competentes, bem preparados e muito dignos. Tive a oportunidade de trabalhar com alguns deles. Então, sinto-me orgulhoso e muito esperançoso desse novo momento”, declara.
Produtores independentes apontam sugestões para melhoras
Sócio-diretor da Amuleto Filmes e membro da Academia Brasileira de Cinema, o produtor e diretor Diego Alexandre celebra o farto material brasileiro disponível no streaming. Mas pontua deficiências que impedem uma divulgação maior de tais produções.
As plataformas digitais estão recheadas de filmes brasileiros de todos os gêneros e formatos. Além disso, está previsto para o segundo semestre deste ano o lançamento do Tela Brasil, serviço de streaming gratuito criado pelo governo federal. No entanto, acredito que, mais do que disponibilizar conteúdos, é necessário um investimento maior em distribuição e divulgação. Sem isso, diante de tantas opções, torna-se muito difícil despertar o interesse do espectador por produtos independentes”, pontua.

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Diretor de “Enaldinho em Uma Noite Infinita”, com lançamento nos cinemas previsto para as férias de julho, Alexandre acrescenta que as falhas de distribuição e divulgação também se refletem nas salas de exibição.
O mesmo acontece nos cinemas: nossos filmes até são exibidos, mas a maior parte do público sequer fica sabendo. Sem recursos para divulgação, as obras não sobrevivem nas salas e muitas não passam de uma semana em cartaz”, acrescenta.
Com mais de dez anos de experiência na área, e com participações nos documentários “Entre Sudeste e Nordeste” (2019) e “Quem Tem Medo de Hipnose” (2021), Alex Costa é mais crítico. Ele opina que o Oscar é “o cinema dos grandes estúdios, das grandes produções, é celebrado o maltrapilho, mas ainda vigente, ‘star system’ que perpetua o aspecto mais vil do cinema”. Além disso, afirma que o prêmio não abre espaço para a inclusão.
A Academia de Cinema Americana, junto com suas pequenas gags e discursos pontuais ‘socialmente conscientes’, não é inclusiva. A começar pelo próprio sistema de premiação, que é pautado numa espécie de campanha eleitoral. Ou seja, os responsáveis pela produção e distribuição dos filmes pré-selecionados passam a empreender visando a busca de votos pelos seus ‘cine-produtos’. Historicamente, muitos dos vencedores de cada edição não são contemplados pelos méritos artísticos extraordinários, mas por uma campanha eleitoreira extraordinária. E cara. Muito cara. E isso reflete o que é o Oscar. Ele é um prêmio de uma indústria multimilionária que celebra seus pares multimilionários da indústria audiovisual mais poderosa do mundo e seus associados majoritariamente eurocêntricos”, criticou.
Críticas às políticas públicas atuais de distribuição
Assim como Diego Alexandre, Alex Costa também critica as falhas na distribuição. Apontando a desorganização do setor como indústria, ele explica que o atual modelo de cota de tela não traz benefício algum a produções independentes.
Cotas de tela são um modelo que já está mais do que provado ser ineficiente pois privilegiam produções de pequenos grupos brasileiros (normalmente associados às majors) que detém quase que a totalidade do poder de produção, distribuição e exibição. E, neste mercado, não há espaço para um número cada vez mais abundante de profissionais, artistas e produções independentes cujo volume de produção cresce a cada ano no Brasil”, afirmou.

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Outro ponto que ele tece críticas é em relação aos editais.
Editais voltados a área da cultura e ao audiovisual, tanto federais, estaduais e municipais, quanto aqueles poucos promovidos pela iniciativa privada, são insuficientes para efetivamente trazerem segurança e solidificarem o setor audiovisual brasileiro como uma indústria de serviços. Profissionais que consigam trabalhar em um ou dois projetos contemplados por editais em um ano, não tem a menor garantia de que conseguirão o mesmo êxito nos anos seguintes. Nosso cinema é altamente volátil para seus profissionais. Não existe garantia para ninguém não esteja trabalhando junto a uma das quatro ou cinco grandes produtoras nacionais de que haja oportunidades para elas de forma consistente. O mercado independente nacional funciona na base do favor, da garra e do desespero. A criatividade, a capacidade, o engajamento e a vontade existem em abundância de norte a sul, de leste a oeste no Brasil. O que falta mesmo, é bom senso, estrutura e boa vontade daqueles que efetivamente podem fazer algo para essa massa de pessoas que estão lutando para fazer suas histórias ganharem o mundo”, finaliza.