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Pesquisa inédita analisa distribuição dos apoios culturais nas Zonas Oeste e Sudoeste

Foto: Divulgação.

Em época de carnaval, muitos falam do investimento que esse setor gera nas economias carioca e fluminense. E o período de folia também amplia outra discussão, esta relacionada a outros aspectos do setor cultural. A distribuição de recursos para profissionais e grupos da área. Por isso, uma pesquisa inédita analisa como tais apoios circulam em duas áreas da cidade do Rio de Janeiro. As Zonas Oeste e Sudoeste.

O estudo é feito pela Casa de Culturas, Cuidado, Convivência e Memórias Viva Zona Oeste. A pesquisa vai mapear, pela primeira vez, como editais, leis de incentivo e emendas parlamentares chegam às bordas da cidade. Por isso, o foco é nas Áreas Programáticas (AP), recortes territoriais utilizados pela Prefeitura do Rio para organizar políticas e serviços.

Para o fundador e diretor da instituição, Vinícius Longo, o estudo é uma análise com detalhes que torna necessária a informação sobre o destino de tais recursos.

É a primeira vez que teremos uma fotografia completa de como a política cultural chega às nossas regiões. Produzir esses dados é fundamental para disputar recursos de forma justa e mostrar a potência cultural da Zona Oeste/Sudoeste”, comenta Longo.

Disparidade na distribuição
Longo fala sobre outro ponto necessário desse mesmo estudo. A disparidade da distribuição de recursos para as diferentes áreas da capital.

Ao longo dos últimos quase anos de existência da nossa organização e mais de 10 anos de participação da construção de políticas públicas, temos sempre a percepção que praticamente 80% de todo o recurso de investimento em fomento direto fica nas áreas administrativas 1 e 2, que são Zona Sul e Centro. O restante, 20%, ficam distribuídos para as regiões 3, 4 e 5, que são as regiões Norte, a recém-criada Sudoeste e Oeste. O que acontece é que o somatório da população desses territórios ultrapassa mais de 50% de habitantes. Mas a equidade dos investimentos nunca teve equilíbrio, embora não haja estatísticas oficiais sobre isso. Desta forma, nossa pesquisa tem a chance de apresentar a realidade para a sociedade civil, os poderes legislativo e executivo. Nosso intuito é cobrar e ter por parte da população maior presença nessa luta”, afirma Longo.

Profissional da Zona Oeste não teve sucesso em editais

Cantor, compositor e produtor, Klinger Sebestyen conhece bem essa situação. Morador de Campo Grande, na Zona Oeste, ele conversou com o portal Folha do Leste sobre as dificuldades nos editais de cultura que participou.

Ele revela que já participou de diversos editais. Os mais recentes foram para a Caixa Econômica Federal e da Claro. Em ambos, o nome foi o mesmo, “Projeto Memória Viva Klinger Sebestyen”. Mas nos dois casos não teve sucesso.

Meu projeto falava sobre o incêndio que atingiu o Museu Nacional em 2018. Fiz uma composição que abordava como essa situação representava a falta de cuidado com a memória do nosso país. Cheguei a pagar mais de 2 mil reais para uma pessoa me ajudar na inscrição. No edital da Caixa, infelizmente não fui selecionado. E o da Claro não tive resposta até hoje”, lamentou.

Klinger Sebestyen mora em Campo Grande, na Zona Oeste, e sabe das dificuldades de seleção em editais. Foto: acervo pessoal.

Sem citar nomes, Sebestyen afirma que “só gente famosa” entrou no edital da Caixa. Em apuração da reportagem do portal Folha do Leste, de fato, nomes conhecidos do público apareceram entre os vencedores, como Adriana Calcanhoto, Mano Brown, Zeca Baleiro, Daniela Mercury e Chico Buarque.

Infelizmente, só entra gente famosa nesse edital. Quem é desconhecido não tem vez. E olha que eu tirei dinheiro do meu próprio bolso para inscrever esses projetos”, lamenta Sebestyen.

Produtora cultural reconhece que fama ajuda na captação

Jornalista e produtora cultural com experiência de quase 20 anos, Marta Caminha reconhece que artistas famosos encontram um caminho mais fácil na hora de captar patrocínio por meio de editais.

As inscrições nesses editais são feitas de forma igual. Mas vejo que, no caso de pessoas famosas elas tem menos glosas do que no caso de artistas ‘anônimos’. Mas há a aprovação em casos de pessoas com nomes que não são famosos do público. O que pega mesmo é a captação. Quando se tem fama, a captação é mais rápida. Todos que patrocinam através de renúncia fiscal querem vincular seus nomes a pessoas conhecidas, muito mais do que a pessoas anônimas”, reconhece Marta.

Marta Caminha atua como produtora cultural há quase 20 anos. Foto: reprodução/redes sociais.

Diante disso, o que fazer? Marta sugere um caminho.

Com o tempo quem trabalha com editais entende as mudanças na análise dos pareceristas. Por isso, percebemos o que as pessoas querem que esteja nos editais e aí, vamos lapidando para ‘caber’ naquela roupagem. A gente tem que ler o edital com vontade de entender e decupá-lo, para conseguir ver qual a demanda que ele precisa sanar. Daí você pega o projeto e tenta fazer a adaptação para o artista alcançar esse objetivo, a seleção”, explica.

Justamente por causa da queixa de Klinger Sebestyen e da experiência que Marta Caminha relatou, que Vinícius Longo reconhece a necessidade dessa pesquisa analisar outras áreas da capital e até da Região Metropolitana.

Temos desejo de fazer uma pesquisa em todas as regiões da cidade do Rio de Janeiro. Além disso, também pensamos em outro estudo para demais cidades da Região Metropolitana da capital. Todo esse trabalho, inclusiva a atual pesquisa, é reflexo de mais de 10 anos de trabalho da nossa instituição”, afirma Longo.

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