
Toninho Geraes (esquerda) é o compositor de ‘Mulheres” e acusa Adele (direita) de plágio. Foto: Repródução/montagem.
A polêmica da semana foi musical. Isso porque a Justiça brasileira proibiu as plataformas digitais de executarem “Million Years Ago”, da cantora britânica Adele, com a alegação de que a obra é plágio de “Mulheres”, composição de Toninho Geraes e que foi sucesso na voz de Martinho da Vila nos anos 1990.
O juiz Victor Agustin Jaccoud Diz Torres, da 6ª Vara Empresarial da cidade do Rio de Janeiro, deferiu a liminar que Toninho acionou contra os seguintes grupos: Sony Music Entertainment Brasil Ltda., Universal Music Publishing MGB Brasil Ltda., Adele Laurie Blue Adkins (Adele), Gregory Allen Kurstin (Greg Kurstin) e Beggars Group. Além disso, a decisão reconheceu a similaridade entre as melodias e determinou a suspensão imediata da exploração da obra plagiada.
Diante da polêmica, a Folha do Leste resolveu ouvir quatro músicos, todos compositores, além de profissionais há décadas, com a seguinte pergunta: houve, de fato, plágio?
Importante destacar que a proposta da matéria não é entrar na discussão jurídica da polêmica, mas debater especificamente sob o viés musical sobre até que ponto a semelhança entre melodias pode ou não ser considerada plágio.
Byafra, cantor, compositor e instrumentista

Foto: Reprodução/Internet
Autor de sucessos como “Helena” e “Leão Ferido”, além de ser sido o intérprete de “Sonho de Ícaro”, Byafra reconhece que há semelhança entre as melodias, mas crê que não houve plágio pela linha melódica de uma canção ser diferente da outra.
“As músicas são muito parecidas, elas usam os mesmos acordes, mas a linha melódica é diferente. Particularmente, acho dois universos totalmente opostos. A linha melódica da canção da Adele seria até, se fosse música barroca, uma variação sobre o tema de ‘Mulheres’. Eu não processaria, não”, opinou Byafra.
Felipe Prazeres, maestro do Theatro Municipal do Rio

Foto: Agência Brasil
O maestro do Theatro Municipal do Rio, Felipe Prazeres, levanta uma outra questão. Uma hipótese é a do “clichê harmônico”, expressão comum no meio musical e que não tem nenhum caráter depreciativo. Mas ele reconhece que, se Toninho Geraes se sentiu prejudicado, o compositor então tem direito de acionar a Justiça.
“De fato, os acordes que são tocados no início, principalmente, coincidem com a música que fez sucesso na voz do Martinho da Vila. Mas não sei se o compositor que fez a música da Adele ouviu ‘Mulheres’. Pode ter escutado ou pode não ter ouvido, pois alguns músicos chamam esse padrão musical de ‘clichê harmônico’. Importante salientar que essa expressão não é algo pejorativo, jamais. Ela quer dizer que a melodia, na verdade, não é uma novidade. Então, não tenho como, e nem posso, afirmar que o compositor do hit da Adele ouviu a música do Martinho e a copiou. Mas que são bem semelhantes no início, são. Se a letra de ‘Mulheres’ foi composta antes, ele, o compositor (Toninho Geraes), tem todo o direito de acusar de plágio”, comentou.
José Henrique Nogueira, compositor e musicoterapeuta

Foto: Reprodução/Instagram
Musicoterapeuta, o compositor José Henrique Nogueira compreende a chateação de Toninho Geraes por entender que o processo criativo de uma composição é trabalhosa. Mas reconhece que pode haver coincidências melódicas. Além disso, o músico acredita que as duas melodias poderiam conviver no universo musical sem problemas
“Esse assunto, a respeito de direitos autorais e plágio, é um tema que envolve diversas vertentes. Porque uma pessoa faz uma música e, de repente, escuta a mesma melodia em outra letra. Então, a sensação para quem fez é muito desagradável. Quando alguém faz uma música, há um investimento em questões emocionais e/ou até pessoais. A inspiração é algo muito particular. Ela não atura cópias, nem coincidências. Também não permite a inspiração como uma instância. Apesar disso tudo, cópias acontecem na prática. Mas coincidências também ocorrem. Questões burocráticas e judiciais à parte, neste caso específico, penso que ambas as melodias poderiam conviver sem problemas. Não precisaria tirar uma e nem a outra”, analisou.
André Marçal, cantor, compositor e violonista

Foto: Reprodução/Instagram
Já o violonista, compositor e cantor André Marçal é direto. O plágio aconteceu. Ele até aponta um aspecto técnico que embasa alguns processos do tipo. A semelhança entre sete compassos em sequência das duas canções.
“Para mim, realmente é um plágio, sim, de melodia, que é muito próxima. Existe entre ambas as letras a semelhança entre sete compassos seguidos. Isto é muito claro. Até entendo que, muitas vezes, há canções onde a melodia conta com uma similaridade muito grande e não há uma cópia. Só que neste caso, na minha opinião, a Justiça brasileira acertou em proibir e em retirar a canção da Adele por haver o plágio. Ela é uma grande cantora, sensacional, tem canções belíssimas, mas neste caso há uma cópia, de fato, na melodia”, afirmou.
Jorge Ben x Rod Stewart
A polêmica envolvendo uma canção brasileira e um hit internacional não é novidade. Em 1978, Rod Stewart, cantor inglês (coincidentemente da mesma nacionalidade de Adele) lançou “Da Ya Think I’m Sexy?”, cujo o refrão é melódica e harmonicamente idênticos ao refrão de “Taj Mahal”, composição de Jorge Ben.
Na época, o brasileiro acionou o inglês na Justiça britânica. No tribunal, Rod admitiu ter feito um “plágio inconsciente”, onde reconhecia ter ouvido o ritmo em uma visita ao Brasil, mas alegava não se lembrar o nome da música e nem quem a cantava. Apenas guardou na memória o ritmo.
Stewart foi condenado, mas se aproveitou de uma brecha na lei inglesa e destinou a indenização para caridade. Embora tenha vencido o processo, Jorge Ben não recebeu um centavo de indenização.