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A batalha de mulheres contra a violência doméstica no meio cristão

Caminhada de mulheres evangélicas em Salvador, na Bahia, chamou a atenção para o combate contra a violência doméstica no meio cristão. Foto: Reprodução/Instagram.

Caminhada de mulheres evangélicas em Salvador, na Bahia, chamou a atenção para o combate contra a violência doméstica no meio cristão. Foto: Reprodução/Instagram.

Março chega ao fim, mas a luta das mulheres contra a violência de gênero segue além da simbolismo que o mês representa. E sobre isso ainda há um tema que muitas lidam no cotidiano e sofrem com a falta de acolhimento. A batalha de mulheres contra as agressões dos esposos no meio cristão, principalmente em lares evangélicos.

Nas redes sociais, principalmente no Instagram, tornou-se comum neste mês falas de líderes religiosos, inclusive pastores homens, orientando que esposas denunciem seus companheiros na Justiça, e também na polícia, em casos de agressões físicas e psicológicas. Diversos internautas elogiaram a postura de tais líderes. Inclusive, em Salvador, na Bahia, um grupo liderou uma caminhada em 7 de março com o nome de “Mulheres Evangélicas Contra o Feminicídio”. Apesar disso, os números são altos.

O último levantamento sofre o tema foi realizado pelo Datafolha no ano passado graças à pesquisa Visível e Invisível. A Vitimização de Mulheres no Brasil. O estudo teve a parceria do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e apontou que quase 43% das mulheres evangélicas foram vítimas de agressões do esposo. Entre os católicos, esse percentual cai para aproximadamente 35%. Um desses casos foi o de Maria, que assim será chamada pela reportagem.

Em 2015, ela residia em Jataí, no interior de Goiás. Filha de um casal evangélico, sendo o pai pastor da Igreja Batista, ela conheceu um rapaz que frequentava a Igreja Presbiteriana. Graças ao interesse pelo jovem, optou por frequentar a mesma denominação dele. Entretanto, em poucos meses de relacionamento, os abusos começaram a aparecer.

Em conversa com o portal Folha do Leste, ela relembra que, inicialmente, o então namorado começou a ter manias que julgava estranhas. Em princípio, de acordo com Maria, ele pediu que ela não o beijasse mais em público. Tampouco que o cumprimento fosse com o popular “selinho”. A partir disso, os tipos de violência psicológica tornaram frequentes.

Inicialmente, ele falou para eu não beijá-lo mais em público. Nem mesmo um ‘selinho’ eu podia dar. Achei estranho, mas atendi numa boa. Depois, eu comecei a notar que ele queria muito impor a opinião dele sobre a minha. Por mais que eu argumentasse o oposto, ele tentava me fazer mudar de ideia. Caso não conseguia, ele dizia: ‘Um dia você vai mudar de ideia e me dar razão’. Infelizmente a coisa só piorou a partir daí”, recorda.

Pastor aconselhou esmurrar a parede “para não dar socos” na própria namorada

Deste então, ela explica que os abusos tornaram-se mais frequentes. E o que poderia ser o momento para tentar mudar o comportamento dele foi algo justamente que a colocou mais em risco. O aconselhamento de um pastor da Igreja Presbiteriana que eles frequentavam.

Durante a conversa, Maria recorda que o pastor deu a seguinte sugestão ao rapaz. Se ele quisesse agredi-la, que “esmurrasse a parede para não acertar um soco nela”. E uma situação do tipo quase aconteceu.

A jovem recorda que ambos passeavam de carro pela cidade quando ele, após uma discussão, chegou a fechar o punho. Mas o que seria um soco nela virou um murro no volante. E, na sequência, em um ataque de fúria, ele começou a acelerar pelas ruas do município a mais de 200 quilômetros por hora. Depois disso, a moça decidiu terminar o relacionamento. Mas as sequelas emocionais ficaram.

Depois disso, simplesmente perdi minha identidade. Eu me anulei para fazer tudo por ele. Depois eu vi no que me tornei e nem eu me reconhecia. Tive transtorno de personalidade. Precisei fazer terapia por anos para conseguir superar isso”, relembra.

Muitas vítimas não se reconhecem como tais, afirma advogada

Advogada especializada em Direito de Família, Luciane Lersh conhece essa realidade de perto. Inclusive, aborda alguns casos no perfil que tem no Instagram. Com a experiência de quem atende vítimas de violência doméstica e abuso religioso, ela reconhece a ausência de apoio por parte de muitos pastores. Além disso, explica como isso atrapalha a identificação desse crime dentro da igreja quando ainda se encontra no estágio inicial.

Infelizmente, muitos pastores não se aprofundam no estudo de casos de agressão contra mulheres. Por isso, não identificam os sinais a respeito. Isso porque a mulher não vai no gabinete pastoral com o olho roxo. Ela começa reclamando de situações que são igualmente violentas, mas que, em um primeiro momento, não se tornaram físicas. São os episódios de violência moral, psicológica e até patrimonial. Mas muitos pastores não identificam esses sinais. Consequentemente, muitas mulheres se frustram e ouvem aquele conselho tradicional sobre elas precisarem orar mais”, revela.

Luciane cita um trabalho da pesquisadora Jennifer Carvalho em vários seminários teológicos do Brasil sobre o tema. O gráfico abaixo mostra que não há qualquer registro de disciplinas que falem com os alunos sobre violência doméstica. Além disso, outras matérias que podem abordar temas relacionados direta ou indiretamente, como abuso espiritual e abuso sexual contra crianças e adolescentes, também não tem nenhum registro.

Gráfico da pesquisadora Jennifer Carvalho mostra a ausência de disciplinas que falem da violência doméstica nos lares que afirmam professar o cristianismo como fé. Foto: Reprodução.

Gráfico da pesquisadora Jennifer Carvalho mostra a ausência de disciplinas que falem da violência doméstica nos lares que afirmam professar o cristianismo como fé. Foto: Reprodução.

A advogada reconhece que encorajar a mulher cristã a fazer uma denúncia não é tão fácil porque muitas acreditam que deve “perfomar certos papéis dentro do casamento”. Além disso, acrescenta que algumas sequer conseguem se ver como vítimas por defenderem um papel como esposas no matrimônio.

Essas mulheres se encontram em uma situação de vulnerabilidade maior quando a comparação é com as esposas que não são cristãs. Isso porque acontece uma interpretação errônea quando falam sobre a submissão na Bíblia. Mas, na verdade, isso é abuso espiritual, pois cria-se uma vantagem que, neste caso, é a superioridade do homem em relação à mulher. Na prática, isso coloca ela em um papel secundário, ainda que o discurso nas igrejas fale sobre igualdade entre homens e mulheres. Aí, a partir disso, várias episódios de violência acontecem. E outras situações pioram esse cenário, como o medo do divórcio e o temor da exclusão dos grupos que elas frequentam nas igrejas”, detalha.

especializada em Direito de Família e atende vítimas de abuso religioso. Foto: acervo pessoal.

Luciane Lersch é advogada especializada em Direito de Família e atende vítimas de abuso religioso. Foto: acervo pessoal.

Teóloga lamenta falta de avanços sobre o tema nas igrejas

Teóloga com doutorado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Valéria Vilhena lamenta a falta de “avanços significativos sobre o tema nas igrejas”. Com a experiência de quem estuda o assunto há 20 anos, ela afirma que não são apenas os pastores homens que deixam de debater o assunto. Mas até líderes religiosas mulheres não dão a atenção necessária para as vítimas de violência doméstica.

O que vejo, na verdade, é o protagonismo e a resistência das próprias mulheres, dentro e fora das igrejas, pressionando por mudanças. Os avanços que tivemos no enfrentamento da violência doméstica vieram principalmente da luta feminista e da consolidação de políticas públicas e marcos legais, como o fortalecimento da Lei Maria da Penha. Não foram avanços impulsionados pelas instituições religiosas. Em muitos contextos eclesiais, a violência doméstica ainda é tratada como um problema moral, espiritual ou conjugal, e não como uma violação de direitos humanos. Isso frequentemente leva à orientação para que a mulher ‘ore’, ‘perdoe’ ou ‘preserve a família’, o que pode contribuir para a manutenção do ciclo da violência”, lamenta.

Embora argumente sobre o que considera uma falta de avanço a respeito do tema, Valéria, que é evangélica, reconhece o apoio que até mulheres de outras religiões têm feito em relação a isso.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que há movimentos importantes de mulheres cristãs, feministas e ecumênicas que vêm tensionando essas estruturas e afirmando que a fé não pode ser utilizada para justificar violência ou submissão. Essas mulheres têm insistido que os direitos das mulheres são direitos humanos e que qualquer prática religiosa que naturalize a violência precisa ser criticamente revisada.

A doutora em teologia Valéria Vilhena estuda há 20 anos casos de violência doméstica entre evangélicos. Foto: acervo pessoal.

A doutora em teologia Valéria Vilhena estuda há 20 anos casos de violência doméstica entre evangélicos. Foto: acervo pessoal.

Aumento de pastoras mulheres não é suficiente para combater a violência doméstica

Mestre em Educação no Campo da Linguagem pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Simone Santos compartilha com as opiniões da advogada Luciane Lersch e da teóloga Valéria Vilhena. Isso porque também acredita que o contexto de muitos dos casos de violência se relaciona com a estrutura partriarcal. Além disso, enfatiza que inúmeras esposas o uso da fé como instrumento para aumentar a dor da vítima.

Há certas interpretações religiosas que incentivam a mulher a suportar situações de sofrimento acreditando que, com fé e paciência, o comportamento do marido irá mudar. Em alguns casos, isso gera até a culpabilização da própria vítima, que é responsabilizada por traições, maus-tratos ou agressões, o que contribui para silenciar mulheres e perpetuar ciclos de violência. A fé não deve ser usada para manter alguém em sofrimento, mas deve ser um espaço de acolhimento, proteção e dignidade, tornando as comunidades religiosas aliadas na promoção do respeito e da proteção às mulheres”, reforça.

mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense. Foto: Divulgação.

Simone Santos é mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense. Foto: Divulgação.

Simone reconhece que a presença maior de mulheres em lideranças femininas nas igrejas evangélicas ajuda no combate a esse tipo de crime. Entretanto, ela ressalta que apenas um aumento de liderança feminina não é suficiente para o enfrentamento da violência doméstica contra a mulher.

Embora a liderança feminina possa trazer novas perspectivas e ampliar debates, a violência muitas vezes persiste porque há uma distância entre os valores pregados nas comunidades religiosas e o que acontece na prática dentro dos lares. Por isso, enfrentar a violência contra a mulher exige um trabalho mais profundo de conscientização, educação e transformação cultural, com debates abertos e promoção de uma verdadeira cultura de respeito, igualdade e dignidade nas relações”, finaliza.

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