
Fornovo di Taro: como soldados brasileiros conseguiram a rendição de uma divisão alemã na Segunda Guerra Mundial | Divulgação/Exercito Brasileiro
Nos últimos dias de abril de 1945, enquanto a Alemanha nazista se aproximava da derrota na Segunda Guerra Mundial, soldados brasileiros cercaram uma grande concentração de tropas inimigas no norte da Itália. O episódio, conhecido como rendição de Fornovo di Taro, terminou com a capitulação da 148ª Divisão de Infantaria alemã e de outras formações do Eixo diante da Força Expedicionária Brasileira (FEB).
Entre 28 e 30 de abril de 1945, os militares brasileiros transformaram uma perseguição ao inimigo em uma operação de cerco. Após combates, tentativas de rompimento e negociações, milhares de soldados alemães e italianos entregaram suas armas.
Segundo um registro da Academia Militar das Agulhas Negras, o resultado incluiu 14.779 prisioneiros de guerra. Outras fontes militares apresentam números mais elevados, associados a diferentes contagens e operações realizadas naquele período.
A vitória representou um dos acontecimentos mais expressivos da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Entretanto, seu significado vai além da quantidade de prisioneiros: a operação demonstrou como mobilidade, coordenação entre unidades e isolamento das rotas de retirada podiam levar uma força numerosa a abandonar o combate.
Por que o Brasil enviou soldados para lutar na Itália?
O Brasil entrou oficialmente na Segunda Guerra Mundial em agosto de 1942, depois de uma aproximação progressiva com os Aliados e de ataques de submarinos do Eixo contra embarcações brasileiras.
O governo de Getúlio Vargas passou a organizar uma força terrestre para participar diretamente das operações militares na Europa. A iniciativa resultou na criação da Força Expedicionária Brasileira, que reuniu aproximadamente 25 mil integrantes.
Os primeiros expedicionários chegaram à Itália em julho de 1944. Posteriormente, a FEB passou a integrar a estrutura do V Exército norte-americano, responsável por parte das operações aliadas na península italiana.
Os brasileiros enfrentaram dificuldades relacionadas ao terreno montanhoso, ao inverno europeu, ao abastecimento e à adaptação aos equipamentos e procedimentos utilizados pelos Aliados.
Essa trajetória, desde a preparação das tropas até as operações de combate, foi apresentada anteriormente pelo Folha do Leste em uma reportagem sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.
Em 1945, a situação militar começou a mudar rapidamente. Depois de meses de enfrentamentos na região dos Apeninos, os Aliados intensificaram a ofensiva destinada a romper as defesas alemãs e avançar pelo norte da Itália.
O que aconteceu antes da rendição em Fornovo di Taro?
A operação brasileira em Fornovo foi consequência de uma sequência de combates. Em 21 de fevereiro de 1945, a FEB conquistou Monte Castello, posição montanhosa cuja defesa havia dificultado o avanço aliado durante meses.
Em abril, os expedicionários participaram de outra batalha importante: Montese, iniciada no dia 14. Os combates provocaram perdas humanas e exigiram o enfrentamento de posições alemãs em áreas urbanas e rurais.
Depois da ofensiva de primavera dos Aliados, as defesas alemãs no norte da Itália começaram a se desorganizar. Diversas unidades procuraram recuar para regiões onde ainda poderiam encontrar rotas de retirada.
A FEB passou então a avançar em direção às planícies próximas de Parma, acompanhando a movimentação de forças inimigas.
As tropas alemãs tentavam alcançar áreas próximas ao Rio Pó, cuja travessia poderia facilitar a continuidade da retirada para o norte.
Para impedir essa movimentação, os comandantes brasileiros precisavam deslocar rapidamente suas unidades e bloquear os caminhos utilizados pelo adversário.
Como os brasileiros conseguiram cercar uma força alemã numerosa?
A etapa decisiva começou na região de Collecchio, nos dias 26 e 27 de abril de 1945.
Unidades brasileiras encontraram forças alemãs e italianas que procuravam escapar do avanço aliado. O contato resultou em combates e na necessidade de reforçar rapidamente as posições brasileiras.
O comando da FEB empregou veículos disponíveis para acelerar o deslocamento da infantaria. Em uma campanha na qual estradas, pontes e meios de transporte eram fundamentais, essa adaptação ajudou a manter a pressão sobre as tropas em retirada.
Segundo a Academia Militar das Agulhas Negras, veículos normalmente empregados no apoio à artilharia também participaram do transporte de militares durante a perseguição.
Em 27 de abril, a FEB estabeleceu posições destinadas a impedir a passagem do grosso das forças alemãs pela região de Fornovo di Taro.
Os brasileiros não precisavam destruir cada unidade inimiga separadamente. O objetivo era impedir que o adversário recuperasse sua liberdade de movimento e continuasse a retirada.
Com os acessos comprometidos, as forças alemãs passaram a enfrentar uma situação cada vez mais difícil.
Por que a 148ª Divisão alemã não conseguiu romper o cerco?
A 148ª Divisão de Infantaria, comandada pelo general Otto Fretter-Pico, integrava o dispositivo militar alemão na Itália.
Na região também estavam elementos da 90ª Divisão Panzergrenadier e de formações italianas que continuavam combatendo ao lado da Alemanha.
Essas tropas enfrentavam o desgaste provocado pela ofensiva aliada, dificuldades de retirada e a pressão exercida pelas unidades brasileiras.
Em 28 de abril de 1945, os alemães realizaram tentativas de romper o bloqueio. Entretanto, os contra-ataques não conseguiram restabelecer uma rota segura para a retirada organizada.
A situação militar se agravava porque as formações cercadas precisavam movimentar soldados, veículos, armamentos e equipamentos em uma região sob pressão inimiga.
Embora a quantidade de militares alemães e italianos fosse expressiva, superioridade numérica não significava, necessariamente, liberdade para concentrar forças ou escolher onde combater.
As tropas do Eixo estavam inseridas em um cenário de colapso militar mais amplo. Naquele momento, diferentes unidades alemãs já se retiravam ou negociavam rendições em outras regiões da Europa.
O bloqueio brasileiro em Fornovo reduziu ainda mais as alternativas disponíveis aos comandantes cercados.
Como aconteceram as negociações de rendição?
O resultado não ocorreu em um único instante. Os combates foram seguidos por contatos entre representantes militares, ultimatos e tratativas sobre a deposição das armas.
Um estudo publicado na revista militar O Adjunto, da Escola de Aperfeiçoamento de Sargentos das Armas, reproduz um ultimato atribuído ao coronel Nélson de Melo, comandante do 6º Regimento de Infantaria brasileiro.
O comando alemão inicialmente procurou obter instruções superiores antes de responder. Entretanto, a pressão militar continuou, e representantes das forças cercadas passaram a negociar os detalhes da capitulação.
Os registros do Arquivo Nacional identificam a rendição do general alemão Otto Fretter-Pico e do general italiano Mario Carloni à FEB, em 30 de abril de 1945.
O episódio marcou o encerramento da resistência organizada das principais forças cercadas naquela região.
É importante distinguir o início da capitulação, as negociações e o processamento dos prisioneiros. Por isso, diferentes documentos mencionam os dias 28, 29 ou 30 de abril ao tratar da rendição em Fornovo.
Essas referências não significam necessariamente relatos incompatíveis: podem corresponder a etapas diferentes de uma mesma operação.
Quantos soldados alemães e italianos se renderam à FEB?
Uma das questões mais importantes para compreender Fornovo di Taro envolve o número de prisioneiros.
O informativo publicado pela Academia Militar das Agulhas Negras, em abril de 2025, apresenta o total de 14.779 prisioneiros de guerra associados à capitulação da 148ª Divisão e de outras forças inimigas.
O mesmo documento menciona a captura de aproximadamente 1.500 viaturas motorizadas, 1.500 veículos de tração animal, além de armamentos, munições e mais de 4 mil cavalos.
Entretanto, outra publicação do Exército Brasileiro, divulgada pelo Centro de Adestramento-Sul, menciona um contingente superior a 15 mil militares nas negociações de rendição realizadas entre 29 e 30 de abril.
Além disso, existem relatos históricos com totais maiores, relacionados à inclusão de prisioneiros capturados em operações posteriores ou em áreas próximas.
Assim, não é adequado apresentar todas essas contagens como se representassem exatamente o mesmo grupo, capturado no mesmo momento.
O dado central permanece: milhares de militares alemães e italianos foram capturados ou se renderam em uma operação conduzida pela FEB, incluindo o comando de uma divisão alemã.
Por que a rendição de uma divisão alemã foi tão importante?
Uma divisão militar reúne diferentes unidades de combate e apoio, normalmente estruturadas para executar operações de maior alcance que as de um único batalhão ou regimento.
Entretanto, o efetivo real de uma divisão pode variar muito conforme o período, as perdas e sua situação operacional.
No caso de Fornovo, a importância não estava apenas no nome da 148ª Divisão, mas também no conjunto de tropas e equipamentos que deixou de participar das operações do Eixo.
O aprisionamento reduziu a capacidade dessas forças de continuar combatendo ou reorganizar sua retirada para outras posições.
Ao mesmo tempo, o resultado demonstrou a capacidade da FEB de atuar em operações móveis, diferentes dos combates prolongados em posições montanhosas que haviam marcado etapas anteriores da campanha.
Em Collecchio e Fornovo, os brasileiros precisaram combinar reconhecimento, deslocamento rápido, bloqueio de rotas e coordenação entre unidades.
Outro aspecto relevante foi a rendição de oficiais-generais, registrada documentalmente pelo Arquivo Nacional.
Apesar de sua importância, essa vitória ocorreu em uma fase na qual a Alemanha já enfrentava derrotas sucessivas. O sucesso brasileiro deve ser compreendido dentro da ofensiva geral dos Aliados, e não como uma operação isolada que determinou o resultado da guerra.
O que aconteceu com a FEB depois de Fornovo?
Após a rendição, unidades brasileiras continuaram avançando pelo norte da Itália, acompanhando o encerramento das operações militares contra as forças alemãs.
Em 2 de maio de 1945, a FEB estabeleceu contato com tropas francesas na região de Susa, próxima à fronteira franco-italiana.
Na mesma data, foi formalizada a rendição das forças alemãs na Itália, cujo processo integrava a capitulação mais ampla das tropas do Eixo na Europa.
A Alemanha nazista se renderia definitivamente poucos dias depois, com a entrada em vigor da capitulação em 8 de maio de 1945.
Encerrada a participação brasileira nos combates europeus, começaram os preparativos para o retorno dos expedicionários ao Brasil.
Os primeiros contingentes regressaram em julho de 1945. A chegada foi recebida com comemorações públicas, embora muitos veteranos enfrentassem dificuldades de readaptação à vida civil.
A participação brasileira também incluiu operações aéreas. O 1º Grupo de Aviação de Caça da FAB, conhecido pelo lema Senta a Púa!, realizou missões de combate e apoio às forças aliadas durante a campanha italiana.
O que Fornovo di Taro representa para a história militar brasileira?
A rendição de Fornovo di Taro permanece como um dos episódios mais relevantes da atuação da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial.
Os acontecimentos de abril de 1945 demonstraram a importância da mobilidade, da coordenação entre unidades e do controle das rotas de retirada inimigas.
Também evidenciaram que uma grande operação militar pode terminar por meio de uma capitulação negociada, quando as condições de combate tornam inviável a continuidade da resistência.
Entretanto, preservar essa memória exige reconhecer o contexto humano da guerra. A campanha italiana provocou mortes, ferimentos, destruição de cidades e sofrimento entre militares e civis.
A vitória brasileira não elimina essas consequências, assim como o reconhecimento dos pracinhas não dispensa uma análise crítica das decisões militares e políticas daquele período.
O legado de Fornovo não está somente nos milhares de prisioneiros ou na rendição de uma divisão alemã. Está também na capacidade de uma força expedicionária brasileira de participar de operações complexas dentro de uma campanha internacional e contribuir para o encerramento do conflito na Itália.
Mais de oito décadas depois, os registros históricos permitem reconstruir esse episódio sem depender exclusivamente de narrativas comemorativas, mostrando como os combates, a logística e as negociações se combinaram para produzir a capitulação.








