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Fotografias de fantasmas: como imagens do século XIX enganaram o olhar e desafiaram a ciência

Fotografia histórica de Mary Todd Lincoln com uma figura translúcida atrás dela, apresentada como o espírito de Abraham Lincoln.

Fotografias de fantasmas: como imagens do século XIX enganaram o olhar e desafiaram a ciência | Reprodução

Uma pessoa posa diante de uma câmera. Atrás dela, surge uma figura translúcida, semelhante ao rosto de alguém que já morreu. Para muitos observadores do século XIX, fotografias como essa pareciam revelar algo extraordinário: a possibilidade de registrar espíritos por meio da tecnologia.

Entretanto, por trás das aparições existiam técnicas fotográficas capazes de produzir imagens convincentes, além de um mercado que explorava a curiosidade e o sofrimento de pessoas enlutadas.

Neste sábado, 31 de outubro de 2026, a história dessas fotografias volta ao centro das atenções com uma pesquisa divulgada pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos em 26 de outubro.

A publicação, intitulada Some of the Spookiest Specters in the Library’s Archives, apresenta documentos relacionados ao sobrenatural, incluindo imagens produzidas durante a popularização do espiritualismo.

Entre os personagens dessa história está William H. Mumler, fotógrafo norte-americano que ganhou notoriedade ao vender retratos nos quais supostos espíritos apareciam ao lado de pessoas vivas.

Quando as fotografias começaram a mostrar supostos fantasmas?

Durante o século XIX, a fotografia se transformou em uma ferramenta importante para preservar a aparência de pessoas e acontecimentos.

Entretanto, a tecnologia também abriu espaço para experiências visuais que ultrapassavam os limites dos retratos convencionais.

Alguns fotógrafos perceberam que determinados procedimentos permitiam criar figuras parcialmente transparentes, semelhantes a aparições sobrenaturais.

Com o crescimento do interesse pelo espiritualismo, essas imagens passaram a ser apresentadas por alguns profissionais como possíveis registros de pessoas falecidas.

O movimento espiritualista ganhou força em diversos países durante o século XIX. Seus seguidores defendiam, entre outras crenças, a possibilidade de comunicação entre vivos e mortos.

Nos Estados Unidos, a Guerra Civil, travada entre 1861 e 1865, deixou um número devastador de mortos. O luto coletivo também contribuiu para aumentar o interesse por experiências que prometiam algum contato com familiares desaparecidos.

Segundo a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, a combinação entre perdas humanas, crenças espiritualistas e técnicas fotográficas favoreceu a popularização das chamadas fotografias de espíritos.

William Mumler transformou supostas aparições em negócio

Um dos nomes mais conhecidos dessa história é William H. Mumler, que iniciou sua atividade como fotógrafo de supostos espíritos na década de 1860.

Seus retratos apresentavam figuras vagas e translúcidas próximas às pessoas fotografadas. Frequentemente, os clientes interpretavam essas silhuetas como manifestações de parentes falecidos.

A promessa de registrar imagens do além atraiu interessados e transformou a atividade em um negócio lucrativo.

Entretanto, dúvidas começaram a surgir quando observadores reconheceram pessoas vivas entre as supostas aparições.

A situação enfraqueceu a credibilidade do fotógrafo. Afinal, uma imagem apresentada como espírito de alguém falecido não poderia representar uma pessoa que continuava viva.

Mesmo assim, Mumler conservou seguidores que acreditavam na autenticidade de seus retratos.

A controvérsia cresceu até envolver autoridades judiciais norte-americanas.

O processo de 1869 que colocou as fotografias sob suspeita

Em 1869, William Mumler enfrentou acusações de fraude em Nova York.

As autoridades investigaram a possibilidade de que ele estivesse utilizando truques fotográficos para vender imagens falsas a pessoas interessadas em manifestações sobrenaturais.

Durante o processo, especialistas discutiram como determinadas técnicas poderiam produzir figuras fantasmagóricas sem qualquer intervenção de forças desconhecidas.

O empresário e artista de espetáculos P. T. Barnum participou da acusação como testemunha.

Entretanto, a defesa apresentou testemunhos de pessoas que afirmavam não ter identificado manipulações durante as sessões fotográficas.

Ao final, Mumler foi absolvido por insuficiência de provas. Isso não significou que a Justiça tivesse confirmado a existência de espíritos nas fotografias.

A decisão tratou das acusações judiciais e das evidências disponíveis naquele processo.

A Biblioteca do Congresso recupera esse episódio em sua pesquisa histórica sobre a fotografia de espíritos.

A fotografia que teria mostrado Abraham Lincoln depois da morte

Entre os retratos mais conhecidos atribuídos a Mumler está uma imagem de Mary Todd Lincoln, viúva do presidente norte-americano Abraham Lincoln.

Na fotografia, Mary aparece sentada, enquanto uma figura parcialmente transparente surge atrás dela.

A silhueta foi apresentada como uma manifestação de Abraham Lincoln, assassinado em 1865.

O retrato se tornou um dos exemplos mais famosos da fotografia espiritualista do século XIX.

Entretanto, a imagem não constitui evidência de que Lincoln tenha aparecido diante da câmera após sua morte.

Ela integra uma tradição fotográfica conhecida por produzir supostas manifestações sobrenaturais mediante procedimentos técnicos.

O interesse de Mary Todd Lincoln pelo espiritualismo também precisa ser compreendido no contexto de suas perdas familiares e do luto que marcou sua vida.

A fotografia revela, sobretudo, como essas imagens podiam adquirir profundo significado emocional para as pessoas retratadas.

Como os fotógrafos criavam aparições sem utilizar computadores?

Muito antes da fotografia digital e dos programas de edição, profissionais já conseguiam combinar figuras diferentes em uma única imagem.

Uma das técnicas envolvia a dupla exposição, procedimento no qual uma mesma superfície fotossensível recebia mais de uma exposição à luz.

Assim, duas imagens poderiam aparecer sobrepostas no resultado final.

Se a segunda exposição apresentasse uma pessoa em posição diferente ou com iluminação reduzida, a imagem resultante poderia assumir aparência translúcida.

Outra possibilidade envolvia o reaproveitamento inadequado ou intencional de placas fotográficas de vidro, deixando vestígios de registros anteriores.

Essas marcas podiam ser interpretadas como rostos ou silhuetas misteriosas.

Além disso, determinados efeitos eram produzidos posicionando pessoas diante da câmera apenas durante parte do tempo necessário para a exposição fotográfica.

O resultado podia sugerir a presença de alguém que não parecia pertencer completamente à cena.

O National Science and Media Museum explica como essas experiências contribuíram para o surgimento e a popularização das fotografias de fantasmas.

William Hope levou a fotografia espiritualista ao século XX

A popularidade dessas imagens não desapareceu com as controvérsias envolvendo Mumler.

No início do século XX, o britânico William Hope tornou-se outro personagem importante da fotografia espiritualista.

Ele esteve associado ao grupo conhecido como Crewe Circle, que produzia retratos com supostas manifestações de espíritos.

As imagens frequentemente mostravam figuras humanas translúcidas próximas a pessoas fotografadas.

Uma coleção preservada pelo National Science and Media Museum inclui retratos atribuídos a Hope, muitos deles produzidos por volta de 1920.

Essas fotografias pertencem a um período marcado pelas consequências da Primeira Guerra Mundial, quando inúmeras famílias enfrentavam a perda de parentes.

Para determinados clientes, os retratos representavam a esperança de reencontrar simbolicamente pessoas desaparecidas.

Entretanto, investigações identificaram procedimentos de manipulação nas imagens de Hope.

Em 1922, suas práticas foram expostas por investigadores, embora ele continuasse encontrando pessoas dispostas a acreditar em seus resultados.

O museu britânico analisa essas contradições em seu estudo sobre William Hope e o significado cultural da fotografia espiritualista.

Arthur Conan Doyle e Harry Houdini discordavam sobre os espíritos

O debate sobre fotografias sobrenaturais também envolveu duas figuras conhecidas da cultura popular.

De um lado estava Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes e defensor de ideias espiritualistas.

Do outro, Harry Houdini, ilusionista que dedicou parte de sua carreira a investigar e denunciar práticas fraudulentas atribuídas a médiuns.

Conan Doyle acreditava na possibilidade de manifestações sobrenaturais e demonstrava interesse por imagens apresentadas como fotografias de espíritos.

Houdini, por sua vez, conhecia diferentes métodos de ilusionismo e utilizava demonstrações práticas para explicar como supostos fenômenos poderiam ser reproduzidos artificialmente.

Durante a década de 1920, os dois divergiram publicamente sobre o espiritualismo.

Em uma demonstração, Houdini apareceu em uma fotografia manipulada ao lado de uma imagem fantasmagórica de Abraham Lincoln.

O objetivo era demonstrar que uma fotografia aparentemente sobrenatural podia ser produzida sem a presença de qualquer espírito.

O episódio também aparece na documentação histórica da Biblioteca do Congresso.

Por que tantas pessoas acreditavam nessas fotografias?

As fotografias espiritualistas surgiram em um período em que a imagem fotográfica adquiria crescente importância como registro visual.

Para muitos observadores, uma câmera parecia oferecer um testemunho mais confiável do que uma pintura ou um relato verbal.

Essa confiança favoreceu interpretações de que figuras misteriosas registradas nas fotografias poderiam representar acontecimentos reais.

Entretanto, os procedimentos técnicos demonstram que uma imagem pode registrar um efeito visual autêntico sem comprovar a explicação atribuída a esse efeito.

Também é necessário considerar o papel do luto.

Para pessoas que haviam perdido familiares, a possibilidade de receber um retrato com a suposta presença de alguém querido podia oferecer conforto emocional.

O National Science and Media Museum destaca esse aspecto ao examinar a recepção das imagens de William Hope.

Assim, a fotografia de espíritos não representa apenas uma história de manipulação visual. Ela também documenta crenças, experiências de perda e tentativas de compreender a morte.

O que os arquivos revelam sobre os fantasmas fotografados?

A pesquisa divulgada pela Biblioteca do Congresso em outubro de 2026 demonstra que essas imagens continuam relevantes para compreender a história da fotografia e das crenças sobrenaturais.

Atualmente, arquivos e museus preservam retratos espiritualistas como documentos culturais, históricos e técnicos.

Isso não significa que as instituições reconheçam as figuras retratadas como manifestações reais de pessoas falecidas.

Ao contrário, diversos registros permitem identificar métodos capazes de produzir as aparições por meios fotográficos conhecidos.

Neste Halloween de 2026, a história dessas imagens oferece uma reflexão que permanece atual: a aparência extraordinária de um registro visual não garante que sua interpretação também seja verdadeira.

Entre truques de exposição, crenças e experiências de luto, as fotografias de fantasmas revelam como a tecnologia pode produzir imagens convincentes e despertar perguntas profundas sobre aquilo que as pessoas desejam acreditar.

Os espíritos não foram comprovados pelas câmeras. Entretanto, as fotografias permaneceram como testemunhos de uma época fascinada pela possibilidade de enxergar além da morte.

Enzo Carvalho
Enzo Carvalho é jornalista profissional, com atuação voltada à cobertura de inovação, tecnologia, cotidiano e esportes. Ex-jogador profissional de e-sports, traz para o jornalismo uma compreensão prática do universo digital, das plataformas tecnológicas e das transformações provocadas pela cultura conectada.

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