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Bruxas eram queimadas vivas? Os mitos e as verdades sobre a caça às bruxas

Mulher acusada de bruxaria aparece amarrada diante de magistrados e moradores em uma representação histórica de julgamento na Europa.

Bruxas eram queimadas vivas? Os mitos e as verdades sobre a caça às bruxas | Folha do Leste/Imagem ilustrativa gerada por IA

Bruxas com chapéus pontudos, vassouras voadoras e caldeirões fumegantes são figuras tradicionais do Halloween. Entretanto, por trás dessas representações existe uma história muito mais sombria: milhares de pessoas foram acusadas de bruxaria, julgadas e executadas durante perseguições que atravessaram diferentes regiões da Europa.

Neste sábado, 31 de outubro de 2026, o Dia das Bruxas oferece uma oportunidade de examinar o que realmente aconteceu durante esses processos. Afinal, todas as pessoas acusadas morreram queimadas? A Igreja Católica conduziu sozinha as perseguições? E somente mulheres foram condenadas?

Documentos preservados pelo Parlamento britânico e pelo Arquivo Nacional do Reino Unido revelam uma realidade mais complexa. Além disso, a historiadora Diane Purkiss, professora da Universidade de Oxford, identifica equívocos históricos que continuam presentes no imaginário popular.

O resultado é uma história marcada por medo, conflitos sociais, crenças religiosas e decisões judiciais que frequentemente transformaram suspeitas em sentenças de morte.

As bruxas eram realmente queimadas vivas?

A imagem de uma pessoa amarrada a uma estaca, cercada pelas chamas, tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da perseguição à bruxaria.

Entretanto, a fogueira não foi o método de execução utilizado em todos os países.

Na Inglaterra e nas colônias inglesas da América do Norte, as condenações por bruxaria normalmente resultavam em enforcamento. Isso ocorria porque a legislação inglesa classificava determinados atos de bruxaria como crimes graves sujeitos à pena de morte.

Já na Escócia, autoridades realizaram execuções relacionadas à bruxaria que incluíam a queima dos corpos. Segundo Diane Purkiss, condenados eram frequentemente estrangulados antes de serem queimados.

Os registros históricos também documentam diferenças dentro das próprias tradições jurídicas europeias. Em determinados processos, pessoas acusadas foram condenadas à morte pelo fogo, enquanto outras receberam punições diferentes.

Portanto, afirmar que todas as supostas bruxas morreram queimadas simplifica uma história marcada por legislações e práticas regionais distintas.

A análise completa de Purkiss está disponível na English Heritage, que reúne oito mitos sobre as perseguições por bruxaria.

A caça às bruxas aconteceu principalmente na Idade Média?

Outra ideia recorrente associa as grandes perseguições exclusivamente ao período medieval.

Embora acusações e punições por práticas consideradas mágicas existissem anteriormente, as campanhas mais intensas de perseguição à bruxaria ocorreram principalmente durante a Idade Moderna.

Os processos ganharam força entre os séculos XV e XVII, com episódios que continuaram em algumas regiões durante o século XVIII.

Na Inglaterra, a legislação contra a bruxaria passou por diversas transformações. O Parlamento aprovou uma lei em 1542, durante o reinado de Henrique VIII, que estabeleceu a pena de morte para determinadas práticas.

A norma foi revogada poucos anos depois. Entretanto, uma nova legislação entrou em vigor em 1562, durante o reinado de Elizabeth I.

Posteriormente, em 1604, Jaime I sancionou outra lei que endureceu o tratamento de certas acusações.

Esses acontecimentos mostram que a perseguição não pertenceu apenas a um passado medieval distante. Ela também integrou sociedades europeias que atravessavam importantes transformações políticas, religiosas e intelectuais.

Quantas pessoas morreram durante as perseguições?

Determinar o número exato de vítimas representa um desafio para os historiadores. Muitos documentos desapareceram, enquanto outros oferecem informações incompletas.

Segundo Diane Purkiss, as estimativas para o principal período de perseguições situam o número de executados aproximadamente entre 30 mil e 60 mil pessoas.

Esses números abrangem diferentes regiões e séculos, incluindo estimativas para processos cujos registros não sobreviveram.

Isso também significa que a cifra frequentemente repetida de nove milhões de vítimas não possui sustentação na historiografia apresentada pela pesquisadora.

Além disso, é necessário distinguir pessoas denunciadas, investigadas, presas, julgadas e efetivamente executadas. Uma acusação não resultava automaticamente em condenação à morte.

Os próprios registros ingleses mostram que diferentes processos terminaram com absolvições ou outras decisões judiciais.

A quantidade de vítimas, embora inferior a algumas cifras populares, revela a dimensão de uma perseguição histórica que atingiu comunidades inteiras.

Somente mulheres eram acusadas de bruxaria?

As mulheres constituíram a maioria das pessoas acusadas em diversas regiões europeias, especialmente na Inglaterra.

Contudo, homens também foram perseguidos, julgados e executados por acusações de bruxaria.

Purkiss estima que milhares de homens tenham morrido durante as perseguições europeias. Em determinadas regiões escandinavas, eles chegaram a representar uma parcela particularmente significativa dos acusados.

Na Inglaterra, mulheres idosas e economicamente vulneráveis apareciam frequentemente entre os alvos das suspeitas. Entretanto, as acusações também atingiam pessoas com outras condições sociais.

Conflitos entre vizinhos, desentendimentos pessoais e acontecimentos considerados inexplicáveis podiam alimentar denúncias.

Por isso, o perfil histórico das vítimas não corresponde integralmente à imagem de uma única personagem: a mulher isolada, vestida de preto e dedicada a supostos rituais mágicos.

Por que tantas pessoas acreditavam na existência de bruxas?

Durante os séculos XVI e XVII, muitos europeus interpretavam acontecimentos cotidianos por meio de crenças religiosas e sobrenaturais.

A morte repentina de uma criança, uma colheita perdida ou uma doença desconhecida poderiam despertar suspeitas contra alguém da comunidade.

Segundo o Parlamento do Reino Unido, essas crenças influenciaram a maneira como diferentes sociedades tentavam explicar infortúnios.

Assim, uma pessoa considerada responsável por provocar determinados males poderia enfrentar uma acusação formal de bruxaria.

Além disso, autoridades religiosas e políticas contribuíam para disseminar interpretações sobre a atuação do Diabo e de forças sobrenaturais.

Entretanto, os registros dessas crenças não constituem provas de que os acusados possuíam poderes sobrenaturais. Eles documentam como as sociedades da época compreendiam e julgavam os acontecimentos.

A Inquisição foi responsável por todas as perseguições?

A associação entre caça às bruxas e Inquisição aparece frequentemente na cultura popular. Contudo, a responsabilidade histórica pelas perseguições não pode ser atribuída exclusivamente a uma instituição religiosa.

Em diferentes regiões europeias, autoridades civis, tribunais locais e instituições religiosas participaram de processos relacionados à bruxaria.

Na Inglaterra, a legislação transferiu o julgamento de determinadas acusações para os tribunais comuns.

Além disso, territórios protestantes também conduziram perseguições significativas.

Segundo Purkiss, diferentes confissões cristãs participaram desses processos em graus distintos, enquanto os métodos jurídicos e a intensidade das perseguições variavam conforme o território.

Portanto, as caças às bruxas não podem ser explicadas exclusivamente pela atuação da Inquisição ou de uma única corrente religiosa.

Compreender esses acontecimentos exige considerar também o funcionamento dos tribunais, as disputas políticas e as tensões existentes nas comunidades.

Os julgamentos de Pendle revelam como funcionava a perseguição

Um dos episódios mais conhecidos da história inglesa ocorreu em 1612, na região de Pendle, em Lancashire.

Doze pessoas foram acusadas em processos relacionados a supostos assassinatos praticados por bruxaria.

Segundo a organização Historic England, uma das acusadas morreu sob custódia. Outra foi absolvida, enquanto dez receberam condenações e morreram por enforcamento.

Os processos tornaram-se um exemplo histórico de como acusações sobrenaturais podiam resultar em punições judiciais extremas.

Décadas depois, a região voltou a registrar outro episódio significativo.

Em 1633 e 1634, o jovem Edmund Robinson afirmou ter testemunhado uma reunião de bruxas. Suas alegações desencadearam novas denúncias e investigações.

Entretanto, os documentos preservados pelo Arquivo Nacional britânico registram posteriormente uma mudança em seu depoimento. Durante novo interrogatório, Robinson admitiu ter elaborado as histórias a partir de conversas que ouvira sobre perseguições anteriores.

O Arquivo Nacional do Reino Unido conserva documentos relacionados a essa investigação.

O episódio demonstra como relatos sem comprovação podiam desencadear acusações, prisões e processos judiciais.

Quando a Inglaterra deixou de tratar a bruxaria como crime?

Durante o século XVIII, mudanças jurídicas e culturais contribuíram para enfraquecer a perseguição formal à bruxaria na Inglaterra.

Em 1736, uma nova legislação revogou as antigas leis que criminalizavam a bruxaria.

Entretanto, a norma ainda previa punições contra pessoas que afirmassem possuir determinadas capacidades mágicas ou sobrenaturais.

Assim, a mudança não representou o desaparecimento imediato das crenças populares. Ela alterou principalmente a maneira como a legislação tratava essas alegações.

Os registros do Parlamento britânico mostram que a legislação posterior passou a abordar certos comportamentos como formas de engano ou fraude, em vez de considerar poderes sobrenaturais como realidade comprovada.

As transformações legais também demonstram como as sociedades modificaram seus critérios para interpretar acusações que anteriormente poderiam resultar em execuções.

Das perseguições históricas às bruxas do Halloween

Com o passar dos séculos, a figura da bruxa ganhou novas representações na literatura, no teatro, no cinema e nas celebrações populares.

A personagem assustadora, associada a chapéus pontudos, vassouras e caldeirões, tornou-se um dos símbolos mais conhecidos do Halloween.

Entretanto, essa imagem reúne tradições folclóricas, representações artísticas e construções culturais desenvolvidas em diferentes épocas.

Ela não corresponde diretamente ao perfil de todas as pessoas perseguidas por acusações de bruxaria.

Neste 31 de outubro de 2026, distinguir essas representações da história documentada permite olhar para o Dia das Bruxas além das fantasias.

As perseguições revelam como o medo, as crenças e as suspeitas podem produzir consequências graves quando autoridades transformam alegações sem fundamento em condenações.

Por trás de uma das personagens mais populares do Halloween, permanece, portanto, a memória de pessoas reais que enfrentaram acusações, julgamentos e punições por crimes atribuídos a poderes sobrenaturais.

Enzo Carvalho
Enzo Carvalho é jornalista profissional, com atuação voltada à cobertura de inovação, tecnologia, cotidiano e esportes. Ex-jogador profissional de e-sports, traz para o jornalismo uma compreensão prática do universo digital, das plataformas tecnológicas e das transformações provocadas pela cultura conectada.

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