ColunistasComando Militar - Enzo Carvalho

Revolta dos 18 do Forte: o que aconteceu em Copacabana em 1922?

Eduardo Gomes, Siqueira Campos, Nílton Prado e Otávio Correia durante a Revolta dos 18 do Forte, em Copacabana, em 1922.

Da esquerda para a direita, Eduardo Gomes, Siqueira Campos, Nílton Prado e o civil Otávio Correia durante a Revolta dos 18 do Forte, em 6 de julho de 1922. Foto: autoria atribuída a Zenóbio Couto/Wikimedia Commons — domínio público

Em julho de 1922, o Rio de Janeiro viveu um dos episódios mais conhecidos da história militar brasileira. No Forte de Copacabana, oficiais e soldados se rebelaram contra o governo do presidente Epitácio Pessoa, em meio a uma crise que envolvia disputas eleitorais, insatisfação nas Forças Armadas e críticas à política da Primeira República.

O levante começou em 5 de julho de 1922. No dia seguinte, depois de enfrentar o bombardeio de forças governistas, um grupo de revoltosos deixou a fortificação e marchou pela Avenida Atlântica.

A caminhada terminou em confronto com militares leais ao governo. Entre os sobreviventes gravemente feridos estavam os tenentes Antônio de Siqueira Campos e Eduardo Gomes.

O episódio ganhou o nome de Revolta dos 18 do Forte e passou a representar um dos marcos iniciais do tenentismo, movimento militar que influenciou a política brasileira durante a década de 1920.

Entretanto, a história apresenta detalhes importantes: o número exato de participantes da marcha continua controverso, e os revoltosos não representavam a posição de todo o Exército.

Como era o Brasil antes da Revolta dos 18 do Forte?

Em 1922, o Brasil atravessava os últimos anos da Primeira República, período iniciado em 1889 e encerrado em 1930.

Naquele momento, grupos políticos ligados às oligarquias estaduais exerciam forte influência sobre o governo federal. São Paulo e Minas Gerais ocupavam posições de destaque nas articulações presidenciais, embora o sistema político também envolvesse disputas entre outras elites regionais.

Além disso, o modelo eleitoral enfrentava críticas relacionadas à participação política, ao controle dos votos e à influência dos grupos dominantes.

Nesse ambiente, setores militares passaram a questionar o funcionamento das instituições e a atuação do governo.

A insatisfação atingiu especialmente oficiais mais jovens, que defendiam mudanças na organização política do país.

Contudo, esses militares não apresentavam um programa político único e plenamente definido. Suas reivindicações reuniam questões corporativas, críticas às oligarquias e propostas de reformas institucionais.

Quem governava o Brasil durante a revolta?

O presidente Epitácio Pessoa governava o Brasil desde 1919.

Durante sua administração, a relação entre o governo federal e determinados setores militares tornou-se cada vez mais tensa.

Uma das razões envolvia a escolha de civis para comandar pastas tradicionalmente associadas às Forças Armadas.

Além disso, as eleições presidenciais de março de 1922 aprofundaram as disputas políticas.

O candidato governista Artur Bernardes venceu a eleição contra Nilo Peçanha, representante da chamada Reação Republicana.

Parte da oposição contestou o resultado, enquanto militares descontentes ampliaram suas críticas ao governo.

Assim, a revolta não surgiu de um acontecimento isolado, mas de uma sequência de conflitos políticos e institucionais.

O que foram as cartas falsas atribuídas a Artur Bernardes?

Em outubro de 1921, jornais divulgaram cartas atribuídas a Artur Bernardes que continham declarações ofensivas contra integrantes das Forças Armadas.

O episódio provocou forte repercussão política.

Bernardes negou a autoria dos documentos, que ficaram conhecidos como cartas falsas.

Mesmo assim, a circulação dos textos intensificou a insatisfação entre militares e adversários do candidato.

A Fundação Getulio Vargas identifica o caso como um dos acontecimentos que agravaram a crise política anterior à revolta.

Entretanto, as cartas não explicam sozinhas o levante de 1922.

Conflitos eleitorais, reivindicações militares e disputas pelo controle político do país também contribuíram para o ambiente de instabilidade.

Por que a prisão de Hermes da Fonseca agravou a crise?

O marechal Hermes da Fonseca, que havia presidido o Brasil entre 1910 e 1914, exercia influência entre setores militares.

No início de julho de 1922, ele entrou em conflito com o governo federal após criticar a intervenção política em Pernambuco.

Em resposta, o governo determinou sua prisão e o fechamento do Clube Militar.

As medidas aumentaram a indignação de oficiais que já questionavam o presidente Epitácio Pessoa.

Pouco depois, na madrugada de 5 de julho, militares iniciaram levantes em diferentes instalações do Rio de Janeiro.

Além do Forte de Copacabana, ocorreram movimentações na Vila Militar e na Escola Militar do Realengo, entre outras unidades.

Contudo, a maior parte das forças militares permaneceu leal ao governo, o que dificultou a expansão da rebelião.

Como começou a Revolta do Forte de Copacabana?

Na madrugada de 5 de julho de 1922, militares rebelados assumiram posições no Forte de Copacabana.

A fortificação ocupava uma posição estratégica na entrada da praia e possuía armamentos de artilharia destinados à defesa costeira.

Os revoltosos utilizaram seus canhões contra posições militares vinculadas ao governo.

Em seguida, as forças legalistas organizaram a repressão ao movimento.

O confronto envolveu bombardeios contra o forte, que passou a enfrentar crescente isolamento.

Enquanto isso, outras rebeliões fracassaram ou perderam capacidade de resistência.

Dessa forma, os militares de Copacabana perceberam que não receberiam o apoio necessário para sustentar a insurreição.

A situação se agravou até a tarde de 6 de julho, quando parte dos resistentes decidiu abandonar a fortificação.

Quem eram Siqueira Campos e Eduardo Gomes?

Dois nomes se destacaram na história da Revolta dos 18 do Forte: Antônio de Siqueira Campos e Eduardo Gomes.

Ambos eram tenentes e participaram da resistência contra as forças governistas.

Siqueira Campos tornou-se uma das figuras associadas ao movimento tenentista e participou de outras articulações militares durante a década de 1920.

Eduardo Gomes, por sua vez, sobreviveu ao confronto e posteriormente construiu uma longa trajetória militar e política.

Ele integrou o desenvolvimento da aviação militar brasileira, tornou-se brigadeiro e disputou a Presidência da República nas eleições de 1945 e 1950.

Entretanto, a revolta não foi conduzida exclusivamente por esses dois oficiais.

Outros militares participaram do levante e enfrentaram os riscos da confrontação armada.

Por isso, a reconstrução histórica precisa reconhecer também os integrantes menos conhecidos do episódio.

Por que o movimento ficou conhecido como os 18 do Forte?

A denominação “18 do Forte” se tornou popular para identificar o grupo que deixou a fortificação e enfrentou as tropas governistas.

Entretanto, historiadores e documentos apresentam divergências sobre a quantidade exata de participantes da marcha.

A Fundação Getulio Vargas registra diferenças entre relatos da imprensa e testemunhos dos sobreviventes.

Já a Brasiliana Fotográfica, projeto ligado à Biblioteca Nacional, aponta que aproximadamente 17 ou 18 militares e um civil podem ter participado da caminhada.

O número variou ao longo dos acontecimentos porque alguns militares deixaram o movimento antes do confronto final.

Além disso, o civil Otávio Correia aderiu ao grupo durante a marcha.

Portanto, o nome histórico não deve ser interpretado como uma contagem incontestável de todos os participantes do combate.

Ele representa a forma pela qual o episódio entrou na memória política e militar brasileira.

O que aconteceu durante a marcha pela Avenida Atlântica?

Na tarde de 6 de julho de 1922, os militares que permaneceram resistentes decidiram sair do Forte de Copacabana.

O grupo seguiu pela Avenida Atlântica, em direção às forças legalistas.

Durante a caminhada, os revoltosos atravessaram uma região que ainda apresentava características urbanas diferentes das conhecidas atualmente.

Copacabana passava por transformações, com novas construções e expansão da ocupação urbana.

A marcha ganhou significado porque os participantes prosseguiram mesmo diante da evidente superioridade numérica das forças governistas.

Entretanto, o deslocamento não ocorreu como uma cerimônia pacífica ou uma manifestação apenas simbólica.

Os revoltosos estavam armados e envolvidos em uma insurreição militar.

Pouco depois, encontraram tropas leais ao governo e participaram de um confronto com armas de fogo.

O episódio terminou com mortos e feridos, encerrando a resistência rebelde.

Quantos militares morreram na Revolta dos 18 do Forte?

A identificação das vítimas exige cuidado porque diferentes levantamentos históricos utilizam critérios distintos para contabilizar mortos, feridos e participantes.

Entre os nomes associados às mortes decorrentes do confronto aparecem os tenentes Newton Prado e Mário Carpenter, além de outros militares e do civil Otávio Correia.

Newton Prado sofreu ferimentos graves e morreu posteriormente.

Já Siqueira Campos e Eduardo Gomes sobreviveram, embora tenham ficado feridos.

A Brasiliana Fotográfica também identifica outros integrantes da marcha que sobreviveram, contrariando versões simplificadas segundo as quais somente os dois tenentes teriam saído vivos de todo o episódio.

Assim, a expressão popular de que apenas dois sobreviveram precisa ser contextualizada.

A reconstrução rigorosa depende de distinguir quem participou da marcha, quem entrou no confronto e quais foram os destinos posteriores de cada pessoa.

O que foi o movimento tenentista?

O tenentismo reuniu revoltas e articulações militares que contestaram a ordem política brasileira durante a década de 1920.

O movimento recebeu esse nome porque jovens oficiais, frequentemente identificados como tenentes, desempenharam papéis importantes nas insurreições.

Entre suas reivindicações estavam críticas ao domínio das oligarquias regionais, propostas de mudanças eleitorais e defesa de maior participação do Estado na organização nacional.

Entretanto, o tenentismo não funcionava como um partido político unificado.

Seus integrantes apresentavam diferenças de pensamento, objetivos e estratégias.

Além disso, a disposição de derrubar governos pelas armas coloca o movimento dentro da história dos conflitos entre militares e instituições civis.

Essa característica precisa acompanhar qualquer análise de suas reivindicações.

A importância histórica do tenentismo não elimina a necessidade de examinar criticamente os métodos utilizados.

A revolta conseguiu derrubar o governo?

Não. A Revolta dos 18 do Forte fracassou militarmente.

As forças leais ao presidente Epitácio Pessoa conseguiram conter os levantes e derrotar a resistência no Forte de Copacabana.

Além disso, Artur Bernardes assumiu a Presidência da República em novembro de 1922, conforme o resultado da eleição daquele ano.

Entretanto, a derrota não encerrou os conflitos políticos e militares.

Em 5 de julho de 1924, exatamente dois anos depois do início do levante de Copacabana, uma nova rebelião ocorreu em São Paulo.

Os acontecimentos posteriores contribuíram para a formação de outros movimentos armados, incluindo a Coluna Miguel Costa-Prestes.

Assim, o episódio de 1922 se tornou um marco na sequência de crises que abalaram a Primeira República.

Como a Revolta dos 18 do Forte influenciou a Revolução de 1930?

A revolta de 1922 não provocou imediatamente a queda do sistema político da Primeira República.

Entretanto, contribuiu para a formação de redes e experiências entre militares que voltariam a atuar nos anos seguintes.

O tenentismo se desenvolveu durante um período de disputas eleitorais, insatisfação militar e transformações sociais.

Em 1930, uma nova crise política culminou na deposição do presidente Washington Luís e na ascensão de Getúlio Vargas ao poder.

Alguns participantes do movimento tenentista tiveram atuação relevante nesses acontecimentos.

Por outro lado, não é correto apresentar a Revolução de 1930 como consequência exclusiva da marcha de Copacabana.

A mudança de governo envolveu alianças políticas, interesses regionais, conflitos eleitorais e transformações econômicas.

A Revolta dos 18 do Forte foi um antecedente importante, mas não o único.

O que aconteceu com o Forte de Copacabana?

O Forte de Copacabana continuou associado à história militar brasileira depois de 1922.

Ao longo das décadas, mudanças na organização da defesa costeira alteraram suas funções.

Posteriormente, o local passou a abrigar atividades culturais e de preservação histórica.

Atualmente, a antiga fortificação integra o Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana, instituição voltada à conservação e à apresentação de parte da história militar nacional.

O espaço também reúne elementos arquitetônicos e equipamentos que ajudam a compreender o funcionamento das antigas defesas costeiras.

Além disso, a região de Copacabana preserva referências e monumentos ligados à memória do episódio de 1922.

Dessa maneira, o antigo cenário de combate se transformou em um lugar de memória histórica.

Por que a Revolta dos 18 do Forte continua importante?

A Revolta dos 18 do Forte permite compreender as tensões entre o poder civil, os militares e as elites políticas durante a Primeira República.

O episódio também ajuda a explicar como o tenentismo ganhou força nos anos seguintes.

Entretanto, sua importância não se resume à trajetória dos oficiais que participaram da marcha.

O confronto levanta questões sobre a legitimidade dos governos, os limites da atuação política dos militares e as consequências das rebeliões armadas.

Além disso, a existência de versões diferentes sobre o número de participantes e sobreviventes demonstra a necessidade de consultar documentos e pesquisas históricas.

Mais de um século depois, a Revolta dos 18 do Forte permanece como um dos episódios centrais da história militar brasileira, não apenas pela marcha em Copacabana, mas pelo papel que desempenhou nas crises políticas da década de 1920.

Enzo Carvalho
Enzo Carvalho é jornalista profissional, com atuação voltada à cobertura de inovação, tecnologia, cotidiano e esportes. Ex-jogador profissional de e-sports, traz para o jornalismo uma compreensão prática do universo digital, das plataformas tecnológicas e das transformações provocadas pela cultura conectada.

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