
Fora dos planos do Tottenham, Richarlison ainda tem três caminhos para deixar o clube | Divulgação/Tottenham
A tentativa frustrada de retornar ao Brasil não encerrou o impasse de Richarlison no Tottenham. Sem espaço com Roberto De Zerbi, fora da lista de 25 jogadores inscritos na Premier League e treinando separadamente, o atacante brasileiro permanece vinculado aos ingleses até junho de 2027. Agora, as alternativas para antecipar sua saída diminuíram — e uma delas envolve um caminho jurídico de risco.
Especialistas em direito desportivo apontam três possibilidades principais: negociar uma rescisão consensual com o Tottenham, aguardar a janela de janeiro para tentar uma transferência ou buscar uma ruptura unilateral por justa causa.
A terceira alternativa exige cautela. Uma decisão de romper o vínculo sem que a Fifa reconheça fundamento suficiente pode resultar em obrigação de indenizar o Tottenham.
O cenário também interessa ao Vasco. Richarlison tentou acertar com o clube carioca na última janela, depois de manifestar o desejo de defender o Cruz-Maltino. A negociação avançou e o clube chegou a apresentar uma proposta pela contratação definitiva do atacante, mas o negócio não terminou em transferência.
Acordo com Tottenham seria caminho mais viável
Para Pedro Lopes, advogado e sócio-fundador do PPLlaw, especializado em direito desportivo, a saída negociada aparece como a alternativa de maior viabilidade.
“São três caminhos (para Richarlison), em ordem de viabilidade. O primeiro, e mais provável, é um acordo com o Tottenham para a rescisão do contrato. O segundo é esperar a janela de janeiro para buscar uma transferência definitiva. O terceiro, e mais arriscado, é a rescisão unilateral por justa causa, caso o jogador consiga sustentar que o clube adota uma conduta abusiva para forçá-lo a sair. Se a FIFA não reconhecer a justa causa, o atleta pode ser responsabilizado por indenização”, explicou.
Uma rescisão por acordo encerraria o vínculo sem a necessidade de aguardar o mercado de janeiro. Para isso, porém, jogador e Tottenham precisariam definir as condições financeiras da separação.
Caso não haja entendimento, a próxima oportunidade convencional será a janela de transferências de janeiro de 2027.
Há ainda outra data relevante: como o contrato termina em junho, Richarlison poderá firmar um pré-contrato com outro clube a partir de janeiro, para uma transferência sem custos ao término do vínculo.
Artigo da Fifa não oferece saída imediata
Uma alternativa jurídica ganhou espaço depois de o “The Athletic” informar que Richarlison e seus representantes estudavam a possibilidade de recorrer ao artigo 15 do regulamento da Fifa, relacionado à chamada justa causa esportiva.
A situação, entretanto, não representa um mecanismo automático para deixar o Tottenham agora.
Segundo Pedro Lopes, três requisitos precisam ser observados cumulativamente.
“O regulamento da Fifa exige três requisitos cumulativos: que o atleta seja um profissional consagrado, que tenha atuado em menos de 10% das partidas oficiais do clube na temporada e que notifique a rescisão nos quinze dias seguintes à última partida oficial da temporada”, afirmou.
De acordo com a análise do advogado, Richarlison atende atualmente aos dois primeiros critérios. O terceiro, contudo, cria um obstáculo temporal importante.
A possibilidade baseada especificamente nesse dispositivo somente poderia ser analisada depois da última partida oficial da temporada, já em maio de 2027. Nessa altura, restaria aproximadamente um mês para o término normal do contrato.
Declaração de De Zerbi pode abrir outra discussão jurídica
Existe uma distinção importante entre a falta de minutos por decisão técnica e um eventual impedimento de o jogador exercer sua atividade profissional.
De Zerbi já declarou que não pretende utilizar Richarlison novamente pelo Tottenham. Além disso, o brasileiro não integra a lista de 25 atletas inscritos na Premier League e treina separado do elenco principal.
Para Bernardo Marchesini, integrante da Comissão de Direito Desportivo da OAB/SC e sócio do RCA Advogados, essas circunstâncias poderiam entrar em uma eventual argumentação perante a Fifa.
“Uma situação complexa, mas cabível seria utilizar declarações como a proferida do técnico De Zerbi para buscar perante a Fifa a rescisão por culpa do clube, o que tiraria do jogador o dever de pagar a multa contratual”, avaliou.
A declaração do treinador, isoladamente, não significa que Richarlison tenha direito automático à rescisão. Uma eventual disputa dependeria da análise das circunstâncias e das provas apresentadas.
Se a Fifa rejeitasse a existência de justa causa, o atacante poderia enfrentar consequências financeiras decorrentes de uma ruptura unilateral. Se reconhecesse a responsabilidade do clube, o cenário jurídico seria diferente.
E onde entra o Vasco?
A situação contratual mantém aberta uma possibilidade futura para o Vasco, mas não significa que exista uma negociação em andamento neste momento.
Na última janela, Richarlison buscou alternativas para deixar Londres. Antes das tratativas com o Vasco, o brasileiro chegou a acertar condições salariais com o Trabzonspor, mas o Tottenham não aceitou as propostas apresentadas pelo clube turco.
O retorno ao Brasil chegou a ser discutido com o Vasco. O negócio, entretanto, não avançou devido a divergências relacionadas ao tempo de contrato.
Assim, uma eventual retomada dependeria primeiro das condições para Richarlison deixar o Tottenham e, depois, de um novo entendimento entre o jogador e o clube carioca.
Agente livre ainda depende das regras de inscrição
Se Richarlison conseguir encerrar antecipadamente o contrato, ele passará à condição de agente livre.
Nesse cenário, o calendário tradicional das janelas deixa de ser a única variável. Ainda assim, o atacante precisaria cumprir as normas de registro da federação responsável pelo campeonato escolhido.
“Extinto o vínculo, o atleta se torna agente livre, e o regulamento da Fifa permite o registro fora dos períodos de inscrição, respeitadas as regras da federação de destino”, explicou Marchesini.
No Brasil, portanto, uma eventual contratação ainda precisaria observar os prazos e requisitos da CBF para registro no BID.
Sem rescisão consensual, transferência ou fundamento jurídico para antecipar a saída, resta a alternativa mais simples: cumprir o contrato até junho de 2027. A partir daí, Richarlison poderá escolher seu próximo clube sem necessidade de acordo de transferência com o Tottenham.








