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Artista de São Gonçalo cria memorial para crianças mortas por balas perdidas

Familiares acompanham instalação do Balanço da Memória na Lagoa

Familiares de vítimas acompanham a instalação do “Balanço da Memória”, monumento criado após mobilização das famílias e da ONG Rio de Paz. | Divulgação

O artista Jefferson Medeiros, de São Gonçalo, é o autor do “Balanço da Memória”, monumento criado para homenagear crianças e adolescentes mortos por balas perdidas no estado do Rio de Janeiro.

A obra foi instalada no dia 10 de setembro, no Parque dos Patins, na Lagoa Rodrigo de Freitas, Zona Sul do Rio de Janeiro. O monumento reúne um balanço vazio, um urso de brinquedo e cápsulas de fuzil, todos feitos em ferro fundido. A peça pesa 380 quilos.

Para Jefferson Medeiros, o objetivo foi representar a dor das famílias sem transformar a violência em espetáculo.

“Tive o cuidado de não monumentalizar a violência, mas pensar nesse peso da ausência, desse amor que não volta”, afirmou.

Memorial nasceu da luta das famílias

A criação do monumento é resultado da mobilização das mães das vítimas com a ONG Rio de Paz. A luta ganhou força depois que a Prefeitura do Rio retirou, em dezembro de 2024, as fotos das crianças mortas que faziam parte de uma instalação da organização na Lagoa desde 2015.

A retirada provocou revolta entre os familiares, a ONG e a sociedade civil. A reivindicação chegou ao então prefeito Eduardo Paes em uma articulação acompanhada pela então secretária municipal de Meio Ambiente e Clima, Tainá de Paula.

Balanço da Memória com balanço vazio e urso no Parque dos Patins

“Balanço da Memória”, obra do artista gonçalense Jefferson Medeiros, foi instalado no Parque dos Patins, na Lagoa Rodrigo de Freitas, em homenagem a crianças e adolescentes mortos por balas perdidas. | Divulgação/Rio de Paz

Paes pediu desculpas pela retirada das fotos e se comprometeu com a criação de um memorial permanente. As mães acompanharam as etapas do projeto e conheceram o desenho da obra antes da execução.

Famílias se emocionam

Thamires de Assis dos Santos, mãe de Ester, de 9 anos, morta por bala perdida em Madureira, em 5 de abril de 2023, se emocionou ao conhecer o monumento.

“O urso me lembrou muito dela. Eu vejo ele no quarto dela todos os dias. Eu vendo o monumento, estou vendo ela. É uma forma de lembrar da minha branquinha”, disse.

“Criança da favela não é outra criança”

Lídia dos Santos, avó de Rebecca e tia de Emilly, também acompanhou a instalação. As meninas, de 7 e 4 anos, foram mortas pelo mesmo tiro de bala perdida em 4 de dezembro de 2020, em Duque de Caxias.

As crianças brincavam na porta de casa quando houve um tiroteio entre criminosos e policiais. A família acusa policiais militares de terem feito o disparo que matou as meninas.

“Cada criança representada ali foi amada, tinha pai, tinha mãe, tinha sonhos. Criança da favela não é outra criança. São crianças como todas as outras. É mais um lugar para a gente ter voz para lutar pelas nossas crianças”, afirmou Lídia.

Pelo fim das mortes de crianças e adolescentes

Segundo Antonio Carlos Costa, fundador da Rio de Paz, o memorial é uma conquista, mas a principal luta continua sendo evitar novas mortes.

“Mas não pense que estamos alcançando hoje a meta. Não estamos realizando um sonho, porque essa instalação não é nosso objetivo maior. Nosso objetivo é o fim dessas mortes. Isso aqui é meio, não é fim.”, afirmou ele.

“O Balanço da Memória na Lagoa é o compromisso da cidade em não invisibilizar suas tragédias, usando a arte como um instrumento de afeto, acolhimento e memória viva”, analisa Tainá .

A inauguração oficial do “Balanço da Memória” ainda será marcada pela Prefeitura do Rio.

A inauguração oficial do “Balanço da Memória” ainda será marcada pela Prefeitura do Rio.

Maria Inez Magalhães
Maria Inez Magalhães é editora sênior e repórter especial do Folha do Leste. Jornalista formada pela FACHA, possui mais de 20 anos de experiência, com passagens marcantes pelo jornal O Dia como chefe de reportagem e repórter de Segurança Pública. Especialista em Direitos Humanos, atua na assessoria da ONG Rio de Paz e possui histórico na assessoria de imprensa da ALERJ. É produtora dos documentários ‘Patrícia Acioli, Juíza do Povo’ e ‘Cadê Você?’, além de idealizadora da coluna É O BICHO.

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