Leste FluminenseNiterói

Familiares e amigos culpam Segurança Presente por morte de Renan “Cabelinho” em Niterói: Queremos Justiça

Jovem baleado durante ação no Engenho do Mato morreu após permanecer hospitalizado: moradores dizem que não houve confronto nem apreensão de drogas e ainda afirmam que agentes dificultara socorro

Manifestantes pediram justiça e contestaram as circunstâncias da ação do Segurança Presente que terminou com Renan baleado — Foto: Folha do Leste

Manifestantes pediram justiça e contestaram as circunstâncias da ação do Segurança Presente que terminou com Renan baleado — Foto: Folha do Leste

Familiares e amigos do jovem conhecido como Renan “Cabelinho”, realizaram mais um protesto na Região Oceânica de Niterói, agora em razão de sua morte. Eles acusam agentes do Segurança Presente pelo óbito, alegando eles teriam entrado efetuando disparos com arma de fogo na Comunidade do Goiabão, na Rua 12, em Itaipu.

Eles querem Justiça!

 

O Folha do Leste esteve no local dos protestos e registrou a manifestação, que ocorreu de forma pacífica. Amigos e familiares do rapaz ocuparam a faixa de rolamento da via no sentido Várzea das Moças ao passo que agentes da NitTrans auxiliaram no desvio do trânsito pela Rua Consul Antônio Gonçalves Corrêa para a Avenida Professora Romanda Gonçalves. A morte reascendeu a revolta que já havia levado moradores à Avenida Irene Lopes Sodré em um segundo protesto.

Transito desviado durante a tarde na Avenida Central

Transito desviado durante a tarde na Avenida Central | Folha do Leste

Disparo mortal

Renan levou um tiro na perna durante a mencionada incursão na quinta-feira (06) da semana passada. Mesmo ferido, Renan recebeu voz de prisão em flagrante e, segundo familiares, somente após muita insistência, recebeu socorro. Ele teria dado entrada no Hospital Oceânico Dr. Gilson Cantarino.

Segundo informações obtidas pela reportagem junto a pessoas próximas, o disparo atingiu a região do fêmur e provocou uma grave lesão vascular. O estado de saúde piorou durante a internação e o jovem precisou passar por uma amputação antes de morrer, pois a maior parte do membro inferior teria necrosado.

Cartazes carregados durante a manifestação resumiam a versão defendida por familiares e amigos. Em um deles, os participantes escreveram:

“Não existe confronto quando só um lado atira”. Outro dizia: “Foi crime, não foi acidente”.

PM acompanhou de perto

Oficiais e policiais militares do 12º Batalhão de Polícia Militar, tal qual acompanharam a manifestação com diversas viaturas posicionadas estrategicamente. Todavia, sem necessidade de intervenção. Nós procuramos o capitão responsável pela presença da PM no local, mas ele preferiu não dar entrevista.

Em seguida, nos dirigimos aos moradores que participavam do protesto e que, de alguma forma, presenciaram ou acompanharam os acontecimentos. Por razões de segurança, parte das testemunhas falou sob condição de anonimato.

Testemunhos colocam programa em xeque

Os relatos fornecidos à nossa reportagem por testemunhas, além contundentes e gravíssimos, convergem em elementos que certamente devem dar início a um amplo debate sobre o papel do segurança. Em síntese, moradores contestam que tenha havido confronto. Várias pessoas que ouvimos disseram que os agentes chegaram efetuando disparos.

Uma das testemunhas afirmou que viu a chegada da equipe e ouviu uma ameaça antes dos tiros.

“Eu vi, estava lá e vi. Apontavam para mim e para um senhor que estava comigo e gritaram alto: ‘Hoje vai morrer todo mundo’. E saíram atirando em cima de morador.”~.

Moradores contestam versão de confronto

Segundo o relato, Renan correu e acabou atingido. Ele estava usando uma tornozeleira eletrônica. Os participantes da manifestação acreditam que isso se tratou de fato determinante para que os policiais atirassem no rapaz. Perguntados do porquê, não tiveram dúvidas falar em ação preconceituosa e discriminatória pelos policiais.

Moradores usaram camisetas em homenagem a Renan durante o segundo protesto realizado após a morte do jovem — Foto: Folha do Leste

Moradores usaram camisetas em homenagem a Renan durante o segundo protesto realizado após a morte do jovem — Foto: Folha do Leste

Familiares afirmam, ainda, que Renan vinha cumprindo as determinações judiciais. Além disso, sustentam que sua situação perante a Justiça não justificaria o uso da arma de fogo naquela circunstância.

Outra pessoa ouvida pelo Folha do Leste também afirmou que não houve abordagem antes dos disparos.

“Não abordaram. Eles simplesmente viram alguém dentro de um local e, por achar que era bandido, acharam que tinham o direito de atirar. E não foi só um disparo, foram vários disparos.”

A testemunha disse ainda que, pelo menos, um dos tiros atingiu uma residência, sem deixar outro ferido.

“Cadê a droga?”

Outro ponto contestado pelos moradores é a associação da ocorrência ao tráfico de drogas.

Segundo a apuração do Folha e os depoimentos colhidos no local, não houve apreensão de nenhum material entorpecente ilícito apreendido.

Uma testemunha relatou que mesmo após disparar contra Renan, os agentes seguiram questionando, de modo insistente, onde estavam as drogas.

A mesma pessoa afirmou:

“Não havia no local. Na verdade, nada foi encontrado.”

Outra testemunha igualmente afirmou, de forma categórica, ao falar sobre Renan:

“Não tinha nada com ele. Nada, nada. Absolutamente nada. Não tem prova que ele estava com droga ou que estava vendendo droga.”

Em outro depoimento, uma pessoa próxima ao jovem reforçou:

“Ele não foi pego com dinheiro suspeito. Ele não foi pego com droga. Ele não foi pego armado. Ele não foi pego com nada.”

 

Aviso de morte

Uma das testemunhas afirmou que estava no local quando os agentes chegaram e disse ter ouvido de um deles a frase:

“Hoje vai morrer todo mundo.”

Segundo o mesmo relato, os agentes teriam apontado armas na direção de moradores antes dos tiros.

 

A testemunha afirma que Renan tentou correr e acabou baleado.

Outro ponto repetido por pessoas ouvidas pela reportagem é que não teria havido troca de tiros.

Moradores também afirmam que Renan não estava armado e que nenhum entorpecente foi encontrado com ele.

Uma das fontes foi categórica ao falar sobre o que havia com o jovem:

“Não tinha nada com ele. Nada, nada. Absolutamente nada.”

Radiocomunicador e registro por tráfico

Outro ponto que provoca questionamentos entre os moradores é a classificação da ocorrência.

Segundo a apuração do Folha, um radiocomunicador foi relacionado ao caso, enquanto moradores sustentam que nenhuma droga foi apreendida no local.

As testemunhas dizem que, depois dos disparos, agentes perguntaram repetidamente onde estariam os entorpecentes.

Uma moradora relatou que os questionamentos começaram enquanto Renan ainda estava ferido no chão.

A existência do aparelho aparece, portanto, como um dos elementos relevantes para compreender como a ocorrência acabou relacionada ao tráfico de drogas, apesar das afirmações dos moradores de que não houve apreensão de entorpecentes.

Testemunhas acusam agentes de impedir socorro

A situação ocorrida depois do disparo constitui outra das principais acusações feitas pelas testemunhas.

Moradores relatam que tentaram se aproximar de Renan para socorrê-lo, mas teriam sido impedidos ou intimidados pelos agentes.

Uma testemunha disse que pessoas que tentavam ajudar foram ameaçadas.

Outra estimou que Renan teria permanecido entre 20 e 30 minutos sem ser retirado do local, afirmando que o socorro somente ocorreu depois da pressão dos moradores.

As versões são particularmente graves porque tratam dos minutos imediatamente posteriores ao ferimento que, mais tarde, levaria à internação, à amputação e à morte do jovem.

Moradores também afirmam que algumas pessoas foram levadas à delegacia durante a ocorrência. Uma das testemunhas estimou em cerca de cinco o número de conduzidos, mas o Folha não dispõe, até o momento, de confirmação oficial desse total.

Comunidade questiona defeito em câmeras  corporais

Uma das testemunhas ouvidas sob anonimato afirmou ainda que havia agentes com câmeras corporais durante a ocorrência. Segundo essa pessoa, moradores foram filmados depois dos disparos. Todavia, a mesma fonte diz ter recebido a informação de que uma das câmeras que poderia ter registrado a ação teria sido danificada ou perdida.

A informação é apresentada pela reportagem como relato da testemunha, não como fato confirmado pela corporação.

Para familiares e amigos, eventuais imagens registradas pelos próprios agentes podem ser fundamentais para esclarecer o que aconteceu nos momentos anteriores e posteriores ao disparo.

“Morador não é bandido”

Além da cobrança por esclarecimentos sobre a morte de Renan, os depoimentos revelam uma revolta mais ampla com a forma como moradores de comunidades dizem ser tratados em ações policiais.

Um dos entrevistados afirmou que mora na região, trabalha na construção civil e assistiu à ação.

Durante a entrevista, resumiu a indignação:

“Nós moramos em comunidade, mas não somos bandidos. Somos trabalhadores.”

A mesma testemunha relatou episódio anterior no qual um integrante de sua família quase teria sido atingido por um disparo enquanto carregava um martelo durante uma obra.

Tem que saber separar bandido de morador

O caso anterior não possui relação direta com a morte de Renan, mas ajuda a explicar o ambiente de desconfiança relatado pelos moradores.

Outra moradora reconheceu que a presença policial é necessária em comunidades. Ela reconheceu a necessidade de proteção policial, a existência de problemas mas rejeita a associação automática entre local de moradia e criminalidade.

Para os entrevistados, o questionamento não tem relação com a existência do patrulhamento, mas sobre os excessos cometidos durante essas abordagens.

O que é o Segurança Presente

O Segurança Presente consiste em um programa de policiamento de proximidade do Governo do Estado do Rio de Janeiro.  Sua atuação. inicialmente, está voltada ao patrulhamento preventivo. Ao mesmo tempo, presta suporte e apoio à população no atendimento de ocorrências em regiões onde possui bases e equipes.

No Engenho do Mato, porém, a discussão levantada pelos moradores agora é objetiva: o que levou ao disparo que atingiu Renan e se a atuação dos agentes respeitou os limites necessários para o uso da força.

Familiares e amigos cobram das autoridades diversos esclarecimentos. Acima de tudo, a razão da presença do Segurança Presente na comunidade. Nesse sentido, ponderam que a natureza do programa é de policiamento de proximidade e não de confronto. Por isso, estão cobrando explicações que justifiquem o fato dos agentes terem chegado atirando, segundo a versão deles. Para quem participou do protesto, o caso não termina com a morte de “Cabelinho”.

A princípio, a política teria dito à imprensa, em ocasiões anteriores, que os agentes do Segurança Presente teriam revidado ataque a tiros. O Folha do Leste entrou em contato com a Secretaria de Estado de Segurança Pública e aguarda respostas para atualização deste conteúdo.

André Freitas
André Freitas é diretor-executivo e repórter do Folha do Leste e da Brasil 21 Comunicação. Jornalista e radialista desde a década de 1990, é narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, com 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Possui ampla experiência na cobertura da editoria de política, em razão de funções exercidas nos poderes Legislativo e Executivo, com atuação nas Câmaras Municipais de Niterói, São Gonçalo e Campos dos Goytacazes, além da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e da Prefeitura de Niterói. Dirigiu por 15 anos a Rádio Absoluta, onde apresentou programas noticiosos diários e conduziu coberturas esportivas, incluindo mais de uma década acompanhando a seleção brasileira de futebol. Nesse período, esteve presente em duas Copas do Mundo e em uma edição dos Jogos Olímpicos. Trabalhou também nas rádios Campos Difusora (Campos/RJ) e Litorânea (ES). Exerceu o cargo de editor-chefe nos jornais Olho Vivo (Niterói/RJ) e A Tribuna (Niterói/RJ), além de atuar como colunista do jornal O Diário (Campos dos Goytacazes/RJ).

Leave a reply