
Grande Muralha Verde já recupera 1,66 milhão de hectares no Sahel | Elza Fiúza/Arquivo/Agência Brasil
Uma das maiores iniciativas ambientais da África começa a apresentar resultados mensuráveis após anos de implantação. A Grande Muralha Verde já mantém cerca de 1,66 milhão de hectares em processo de restauração no Sahel, além de contabilizar 4,6 milhões de empregos e alcançar diretamente mais de 46 milhões de pessoas.
Os números integram o balanço de cinco anos do Acelerador da Grande Muralha Verde, divulgado nesta semana pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD).
Além da recuperação das terras, os projetos monitorados contabilizam 24 milhões de toneladas de CO₂ equivalente sequestradas ou mitigadas e a produção de 2.315 megawatts-hora de energia limpa.
Entretanto, a própria ONU alerta que os dados ainda representam apenas uma parte do trabalho realizado na região.
Grande Muralha Verde vai muito além de plantar árvores
Apesar do nome, a iniciativa não consiste simplesmente em criar uma extensa faixa contínua de árvores diante do avanço do Saara.
O projeto reúne áreas agrícolas restauradas, vegetação, sistemas de água, comunidades rurais e atividades econômicas distribuídas pelas regiões áridas africanas.
Assim, o objetivo combina recuperação ambiental com segurança alimentar, geração de renda, emprego, energia limpa e maior resistência às secas e às mudanças climáticas.
A iniciativa surgiu em 2007 sob liderança da União Africana.
Seu núcleo original abrange 11 países: Burkina Faso, Chade, Djibuti, Eritreia, Etiópia, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal e Sudão.
Juntos, os territórios originalmente abrangidos pela Grande Muralha Verde somam cerca de 156 milhões de hectares, desde a bacia do Rio Senegal, no oeste africano, até o Chifre da África.
Desde então, porém, a estratégia ganhou dimensão continental e hoje envolve ações em mais países africanos.
Meta é restaurar 100 milhões de hectares
Os resultados atuais precisam ser observados diante da dimensão dos objetivos estabelecidos para 2030.
A Grande Muralha Verde pretende colocar 100 milhões de hectares de terras degradadas em recuperação, sequestrar 250 milhões de toneladas de carbono e criar 10 milhões de empregos verdes.
Nesse contexto, os 4,6 milhões de empregos registrados até agora representam um dos indicadores mais avançados da iniciativa.
Já a recuperação territorial ainda exige uma expansão muito maior nos próximos anos.
A UNCCD ressalta, contudo, que restaurações ambientais de grande escala podem levar anos ou mesmo décadas para produzir todos os resultados esperados.
Falta de dados ainda limita balanço
O principal obstáculo para medir o avanço da Grande Muralha Verde está na própria disponibilidade das informações.
O Observatório da iniciativa acompanha mais de 389 projetos, mas menos de 90 fornecem atualmente dados alinhados aos indicadores harmonizados adotados pelos países.
Portanto, os números divulgados não correspondem necessariamente à totalidade das ações realizadas.
A UNCCD classifica os resultados como iniciais e afirma que o levantamento continua em desenvolvimento.
A ausência de informações uniformes dificulta, por exemplo, comparar projetos, acompanhar recursos financeiros e determinar com precisão quanto dos compromissos internacionais já se transformou em restauração efetiva.
Observatório tenta unificar informações
Para enfrentar essa fragmentação, os participantes criaram em 2024 o Observatório da Grande Muralha Verde.
A plataforma foi lançada em Ouagadougou, capital de Burkina Faso, e reúne informações sobre projetos, financiamento, resultados ambientais e dados geoespaciais.
Dez dos 11 países fundadores já endossaram o sistema.
Além disso, os parceiros desenvolveram um modelo comum de indicadores para permitir que governos, financiadores e comunidades acompanhem os resultados utilizando os mesmos critérios.
Outra frente envolve as chamadas coalizões nacionais.
Elas já funcionam em nove dos 11 países fundadores e reúnem ministérios, sociedade civil, universidades, empresas e meios de comunicação.
A proposta é melhorar a coordenação e reduzir a distância entre recursos anunciados e projetos efetivamente executados.
Acelerador surgiu após promessa de US$ 19 bilhões
O Acelerador da Grande Muralha Verde começou a funcionar em 2021, depois da Cúpula One Planet.
Na ocasião, governos, bancos e instituições internacionais anunciaram mais de US$ 19 bilhões em compromissos financeiros para apoiar a iniciativa.
O Acelerador surgiu justamente para coordenar esses investimentos, acompanhar os recursos e ajudar os países africanos a demonstrar os resultados.
Cinco anos depois, porém, transformar compromissos financeiros em ações concretas permanece entre os principais desafios.
Além da insuficiência dos dados, o relatório aponta dificuldades de coordenação entre governos, instituições financeiras e organizações responsáveis pela execução.
Mulheres transformam restauração em renda
O balanço também mostra que a Grande Muralha Verde deixou de ser apresentada apenas como um projeto ambiental.
No Mali, por exemplo, uma cooperativa formada por mulheres recebeu equipamentos e treinamento para melhorar a produção agrícola.
Posteriormente, o grupo ampliou suas atividades para o processamento de produtos locais e recebeu quatro hectares de terra da administração municipal para expandir a produção.
No Chade, outra iniciativa capacitou mulheres para instalar e reparar painéis solares.
Dessa maneira, o acesso à energia limpa também passou a funcionar como oportunidade de trabalho e independência financeira.
Os projetos reforçam uma estratégia que tenta unir recuperação ambiental, liderança feminina, empregos para jovens e desenvolvimento econômico local.
Próxima fase busca novos mecanismos financeiros
A UNCCD aponta três prioridades para a próxima etapa: comunicação, novas formas de financiamento e gestão transfronteiriça de terras e águas.
Entre os instrumentos avaliados estão títulos verdes, créditos de carbono e financiamento combinado, que reúne recursos públicos e privados.
A expectativa é criar condições para atrair novos investimentos e, ao mesmo tempo, exigir mecanismos mais claros de acompanhamento.
Além disso, a gestão conjunta de água e terras ganha importância porque muitos ecossistemas atravessam as fronteiras nacionais.
COP17 discutirá restauração e seca na Mongólia
Os desafios da Grande Muralha Verde também entrarão no contexto de uma nova rodada internacional de negociações sobre desertificação.
A 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, a COP17, acontecerá entre 17 e 28 de agosto, em Ulaanbaatar, capital da Mongólia.
A conferência terá como tema “Restaurando a Terra. Restaurando a Esperança”.
Governos, cientistas, organizações sociais, povos indígenas, agricultores e representantes do setor privado discutirão restauração de terras, resiliência às secas, água, sistemas alimentares e financiamento.
Assim, o balanço da Grande Muralha Verde chega às negociações mostrando dois lados do mesmo desafio.
De um lado, milhões de empregos, pessoas beneficiadas e áreas que já começaram a se recuperar.
Do outro, uma meta territorial ainda muito maior, bilhões de dólares comprometidos e dificuldades para medir de maneira uniforme quanto do projeto efetivamente chegou ao solo africano.







