
Praça no Grajaú recebe o Festival Desapegue-se neste sábado (21) a partir das 8 horas. Foto: Francisco Vianna
Após um longo intervalo por causa da pandemia, um dos bairros mais tradicionais da Zona Norte Carioca volta a receber um famoso evento. Isso porque o Grajaú recebe Festival Desapegue-se a partir deste sábado (21) às 8 horas. Além disso, o festival ocorre também no domingo às 9 horas. O local será na Praça Edmundo Rego.
A proposta do evento é o de discutir justiça climática em um território que ajudou a construir sua própria identidade. Com o reconhecimento de lei municipal como patrimônio de interesse cultural, social e ecológico, o festival chega à 124ª edição em seus 18 anos de história, se consolidando como um dos movimentos comunitários mais consistentes da cidade.
Criado em 2008, o evento já impactou mais de 360 mil pessoas, sendo uma iniciativa que articula cultura, sustentabilidade, educação e mobilização local. Atualmente, retorna às ruas com um simbolismo que ultrapassa a programação. Isso porque busca o reencontro presencial de um bairro com a própria memória coletiva, mas também com sua capacidade de projetar novos caminhos.
A inspiração dialoga com o símbolo africano Sankofa, o pássaro que olha para trás enquanto segue adiante, ensinando que o passado só faz sentido quando orienta o futuro. No caso do Desapegue-se, a memória não é ponto de chegada, mas impulso para sonhar futuros regenerativos a partir das raízes do território.
Para Karima Prem, idealizadora do projeto, o retorno carrega um significado que vai além da agenda cultural. A volta à praça após o período da pandemia representa a retomada de um ciclo que nunca foi interrompido de fato, apenas transformado. Segundo ela, o festival permaneceu vivo na memória do território, na rede construída ao longo dos anos e nas iniciativas que continuaram germinando mesmo durante o intervalo.
Como dizia Nego Bispo, a gente não acredita em fim, mas sim em início, meio e início. O retorno do Desapegue-se à praça é a prova viva desse movimento circular de tudo que é pulsante. Nesses anos de intervalo, o festival não parou; ele continuou vivo na memória do território, nas mudas da nossa horta e na vontade da nossa rede. Estar de volta agora é dar início a um novo ciclo de regeneração, mostrando que o que é feito com afeto e propósito nunca morre, ele se transforma e volta ainda mais forte para ocupar o lugar onde ele pertence: o encontro”, afirma Karima.
Primeira edição presencial pós-pandemia
Embora as atividades presenciais já tenham retornado no planeta desde 2022, quando a covid apresentou reduções consideráveis nas quantidades de mortes e internações, o festival, até então, não voltou a ser feito no local. Apesar disso, houve um retorno que serviu como espécie de aquecimento, o Bairro Vivo, que convidou moradores a sonhar e cocriar o legado da nova edição.
Na visão da idealizadora, o diferencial está justamente na forma como os organizadores pensam o festival. Ou seja, por meio de um diálogo permanente com quem vive o cotidiano da região e participa ativamente da construção do encontro. Além disso, A proposta de atuar “com e para” a comunidade ganhou ainda mais consistência a partir do Bairro Vivo, que funcionou como um espaço estruturado de escuta e cocriação. Foi nesse processo que as demandas e os sonhos do pós-pandemia passaram a orientar os caminhos desta nova fase.
Nós somos o próprio bairro em ação. O Bairro Vivo foi essencial nesse processo porque ele não foi apenas um ‘esquenta’, mas um laboratório de escuta. Foi ali, sentado com os moradores e amigos, que entendemos quais eram as dores e os sonhos atuais da comunidade pós-pandemia. Essa edição foi desenhada a partir dessa inteligência coletiva. O diferencial é que o legado não é só o dia da festa, mas a rede que se fortalece, a horta que se renova e a confiança que a gente reconstrói ao perceber que somos capazes de cocriar o futuro que queremos para o nosso lugar. O Bairro Vivo nos deu a bússola; o festival é a celebração desse caminho trilhado em conjunto”, reforça a fundadora.
Da escola pública à praça
A programação começa antes mesmo do fim de semana aberto ao público. Nos dias 19 e 20 de março, escolas públicas do Grajaú recebem ações voltadas à educação climática e à economia circular. Oficinas e atividades lúdicas abrem o debate sobre os impactos da crise ambiental nas cidades e o papel das comunidades na construção de soluções locais.
A escolha de iniciar pelas escolas, segundo a criadora do projeto, está diretamente ligada à proposta de trabalhar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na prática, especialmente o ODS 11, que trata de Cidades e Comunidades Sustentáveis. Para ela, a transformação urbana começa pela formação de consciência e pelo engajamento das novas gerações dentro do próprio território.
Iniciar pelas escolas é a realização de um sonho coletivo que acalentamos há anos. Para nós, o Desapegue-se não é só festa; é um processo educativo constante. Escolhemos as escolas porque é nelas que a semente da transformação real é plantada. Quando trabalhamos o ODS 11, Cidades e Comunidades Sustentáveis, com os jovens, não estamos apenas falando de teoria. Estamos levando a prática da economia circular e da educação climática para o cotidiano deles. Queremos que eles entendam que a cidade é um organismo vivo e que eles têm o poder de cocriar soluções locais para problemas globais”, afirma Prem.
No sábado, dia 21, a agenda ocupa a Praça Edmundo Rego com um mutirão na Horta Comunitária do Grajaú e caminhadas históricas e ecológicas conduzidas por especialistas. A ação busca despertar o elo afetivo entre o cidadão e o lugar, fortalecendo o sentimento de pertencimento e a corresponsabilidade pelo bem comum.
Trocar, reparar e celebrar
Finalmente, no domingo, a praça se transforma em um circuito simultâneo de atividades, com a tradicional Feira de Trocas como grande protagonista. O espaço volta a funcionar com moeda social. Com isso, há o reforço à lógica da economia solidária que marcou as primeiras edições do evento e estimulando novas formas de consumo consciente.
Complementando essa dinâmica, a Estação de Reparos oferece consertos gratuitos de bicicletas, roupas, sapatos e pequenos eletrônicos. Ou seja, quem for ao local encontrará ações práticas para combater o descarte imediato e fortalecer a cultura da economia circular.
Para nós, o desapego nunca foi sobre perda, mas sobre abertura. Muitas vezes acreditamos que a vida é sobre acumular, quando, na verdade, é sobre soltar para deixar a vida fluir. Estamos convidando as pessoas a se desapegarem da ideia de posse absoluta e do descarte. O desapego abre espaço para ganharmos a nós mesmos e ao coletivo. É assim que transformamos consumo em conexão e objetos em novas oportunidades de encontro “, observa a responsável.
O Festival conta com o patrocínio do Governo Federal, Ministério da Cultura, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, por meio da Política Nacional Aldir Blanc. Além disso, ele é realizado pela Mara e Lara Guimarães Guimarães Comunicação e Eventos e pelo Instituto Casa Anitcha. O evento também conta com o apoio da Boomerang – Soluções Ambientais, da Lix – Eventos e Sustentabilidade e da Biomob.







