

A morte de Luis Fernando Verissimo e o vazio intelectual no pensamento e cultura do Brasil | Lindomar Cruz/Agência Brasil
A cultura brasileira perdeu uma de suas vozes mais finas e acessíveis com a morte do escritor e cronista gaúcho Luis Fernando Verissimo, neste sábado (30), aos 88 anos, em Porto Alegre. Com uma obra que inclui mais de 70 livros e uma carreira marcada pela ironia e personagens inesquecíveis, Verissimo não apenas deixa um imenso legado literário, mas também a sensação de uma lacuna intelectual que se aprofunda.
A morte de Luis Fernando Verissimo simboliza para o Brasil a perda de um de seus maiores pensadores. Suas frases marcantes, repletas de filosofemas, traduzem seu sentido, sem complexidade, para o cotidiano do sábio e até mesmo do mais simples leitor. Como resultado, suas elocuções adornavam textos e redações. Em certos casos, fieis e adequadas aos contextos das narrativas. Porém, em muitos outros, somente para enriquecer a retórica vazia de vários sofistas.
Um lamentável vazio
Esse vácuo que se aprofunda, portanto, consiste na perda de mais um intelectual. Trata-se da morte de mais um gênio, dentre tantos que se vão capaz de pensar — e ao mesmo tempo traduzir — suas conjecturas complexas para a compreensão coletiva.
Ele preenchia um espaço que poucos ocupam: o do intelectual popular, acessível, capaz de dialogar com as massas sem sacrificar a profundidade. Sua morte, somada às recentes perdas de outras personalidades de singular sapiência, evidencia a vulnerabilidade de nosso patrimônio cultural. Simplesmente, porque não encontramos novas vozes que consigam manter essa ponte entre o popular e o erudito. Mesmo com essa pluralidade de meios.


Luis Fernando Veríssimo ao lado da imortal Fernanda Montenegro | Paulo Jabur/Divulgação
Ao contrário disso, o que percebemos é o surgimento dos chamados “lugares de fala”. Uma espécie de autoritarismo intelectual que impede o ir e vir da manifestação do pensamento. Em outras palavras, uma espécie de licença poética à censura prévia a qual eu não me submeto.


Encontro de Luis Fernando Verissimo com Glória Maria, em 2011, nos Estados Unidos | Reprodução
Se a erudição se torna inacessível, isolada ou exclusivizada, o pensamento crítico se enfraquece em toda a sociedade. Para quem não pensa ou tem preguiça de pensar, resta tudo o que ele já produziu de saber. A pergunta que fica é: quem produzirá conteúdo erudito em seu lugar? A inteligência artificial?
O saxofone e as palavras


Vocação de pai para filho: Luis Fernando com o pai Érico Verissimo, com um calhamaço do que viria a se tornar a trilogia “O Tempo e o Vento” | Reprodução
Filho do também escritor Erico Verissimo (1905-1975), Luis Fernando nasceu em 26 de setembro de 1936, em Porto Alegre. Na adolescência, viveu nos Estados Unidos, onde descobriu duas paixões que o acompanhariam pela vida: o jazz e a escrita. Tentou o trompete, mas acabou no saxofone. A música, porém, nunca ofuscou sua verdadeira vocação: as palavras.
Personagens que entraram para a história


Tirinha do personagem “O Analista de Bagé” | Reprodução
Verissimo deu vida a figuras que povoaram o imaginário brasileiro: o psicanalista “mais ortodoxo do que a pomada Minâncora”, o “Analista de Bagé”; a incrédula “Velhinha de Taubaté”; as irônicas tirinhas “As Cobras”; o detetive “Ed Mort”; e a irreverente “Dora Avante”. Seus textos transitavam entre política, cotidiano e filosofia com a naturalidade de quem sabia rir das próprias tragédias nacionais.


“A Velhinha de Taubaté”, de Luis Fernando Veríssimo
O cronista que virou referência
Antes de brilhar como escritor, trabalhou como copidesque na Zero Hora, onde até horóscopo escreveu. Em 1969, descobriu seu caminho definitivo como cronista, inspirado por Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Antonio Maria. Chamava a crônica de “exercício de liberdade” — e assim a tratou durante quatro décadas, em jornais como O Globo, Estado de S. Paulo e Zero Hora.
Livros, peças e televisão
Entre seus mais de 70 títulos publicados, com vendas superiores a cinco milhões de exemplares em 15 países, destacou-se O Analista de Bagé (1980), que virou peça, filme e série.
Também conquistou leitores com A Comédia da Vida Privada, adaptada pela TV Globo, e com romances como O Clube dos Anjos (1998), considerado por ele o mais “bem acabado”.
Vida pessoal e paixões
Casado desde 1963 com Lucia, companheira de toda a vida, foi pai de Mariana, Fernanda e Pedro.


Luis Fernando Verissimo e a esposa Lucia
Defensor ferrenho do Internacional, chegou a fundar com amigos o “Movimento dos Sem Netos”, do qual se desligou em 2008, quando nasceu sua neta Lucinda. Fora do futebol, dividia paixões entre jazz, gastronomia e viagens.
O jornalista nas Copas do Mundo
Mesmo tímido, realizou o sonho de ser comentarista esportivo cobrindo três Copas do Mundo para O Globo (2002, 2006 e 2010). Transformava lances de futebol em literatura, sempre com simplicidade e humor refinado.
Últimos anos
Nos últimos anos, enfrentou uma sequência dura de problemas de saúde: retirou um câncer na mandíbula em 2020, sofreu um AVC em 2021, conviveu com Parkinson e doenças cardíacas. Ainda assim, manteve-se presente na memória coletiva como símbolo da crônica brasileira.


Escritor Luis Fernando Verissimo morre aos 88 anos em Porto Alegre | Alice Vergueiro/ABRAJI
Luis Fernando Verissimo deixa a esposa, Lucia, os três filhos — Mariana, Fernanda e Pedro — e uma obra que atravessa gerações. Um cronista que soube rir do Brasil, das pessoas e de si mesmo, sempre com o saxofone ao alcance, mas com a literatura como voz eterna.