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Jornalista Patrícia Nunes diante da morte: “esperando pelo pior, torcendo pelo melhor”

Jornalista Patrícia Nunes diante da morte: "esperando pelo pior, torcendo pelo melhor"

Diante da morte, por conta de riscos cirúrgicos que enfrentará, jornalista Patrícia Nunes  está esperando pelo pior, mas torcendo pelo melhor |

Por Patrícia Nunes, jornalista — Escrevo com a dor de quem está esperando pelo pior e, ao mesmo tempo, torcendo pelo melhor, compartilhando o que é, de verdade, estar diante da morte. Enquanto redijo cada linha, estou entre relatórios, mensagens de pedido de ajuda e a rotina que nunca espera. Afinal, ainda há cães para alimentar, mulheres para ouvir, documentos para protocolar. A vida real não pausa porque estamos com medo. Mas eu estou.

Ao longo dos últimos anos, mais de dois mil animais passaram pelos meus braços. Alguns chegaram com fraturas expostas. Outros, queimados, desnutridos, vítimas de abandono cruel ou violência doméstica que não atinge só mulheres e crianças, mas também os animais da casa. Cada resgate carrega uma história que dói, mas também carrega uma chance.

Mais uma luta diante de outras tantas

Lembro de uma cadelinha preta atropelada, que muitos diriam não ter “valor”. Ficou. Resistiu. Envelheceu conosco. Lembro de ninhadas deixadas em sacos de lixo, de cães amarrados sob sol escaldante, de gatos com sinais claros de espancamento. Em cada caso, houve boletim de ocorrência, articulação com autoridades, pedido de apoio veterinário, vaquinhas para custear cirurgias, noites sem dormir.

Não é romantismo. É trabalho. É gestão de crise. Na prática, é política pública.

Como presidente do Instituto Segunda Chance ao Humano e não Humano e responsável pelo Projeto Arca Animal, aprendi que resgatar é apenas o começo. É preciso pressionar por leis mais eficazes, cobrar fiscalização, dialogar com o Legislativo, provocar o Executivo, participar de audiências, redigir propostas.

Já estive em gabinetes, protocolei ofícios, sentei à mesa com parlamentares para falar sobre castração em massa, clínica veterinária pública, orçamento, responsabilidade do Estado.

Defender os animais é também defender pessoas

A mulher que apanha muitas vezes vê seu cachorro ser ameaçado como forma de controle. A criança que cresce vendo violência aprende que sentir é fraqueza. Por isso, meu trabalho sempre transitou entre o abrigo e o debate público. Entre a ração que falta e a lei que precisa nascer.

“Mas hoje escrevo de um lugar mais íntimo”

Sou portadora de uma doença autoimune que silenciosamente vem corroendo meus ossos. Em breve, enfrentarei uma cirurgia delicada. Os médicos falam com cautela. Eu escuto com coragem e medo. Não sei como voltarei. Não sei se voltarei a ser a mesma. E, sendo honesta, há noites em que me pergunto se volto.

O medo é humano. Tenho uma filha adolescente que já aprendeu cedo demais o que é responsabilidade. Ela ajuda a cuidar dos animais, organiza ração, segura a rotina quando meu corpo falha. Olho para ela e penso no legado. Não de bens, mas de valores.

Esperar pelo pior não é pessimismo. É consciência. Quem trabalha com abandono aprende a lidar com cenários difíceis. Também, quem acompanha processos legislativos sabe que retrocessos existem. Quem enfrenta a própria fragilidade física entende que a vida é imprevisível.

“Torcer pelo melhor, no entanto, é escolha”

Escolho acreditar que cada animal salvo mudou um pedaço do mundo. Que cada mulher orientada por mim, encontrou um fio de força. Que cada denúncia formalizada criou um precedente. E, ainda, que cada audiência pública deixou registrada uma voz que não se calou.

Se eu voltar da cirurgia, voltarei ainda mais consciente da urgência de viver com propósito. Se minha caminhada mudar de ritmo, que mude, mas não de direção. Porque enquanto houver um cão com fome, uma mulher silenciada ou uma lei negligenciada, eu ainda terei razões para lutar.

Escrevo esperando pelo pior, sim. Mas torcendo, profundamente, pelo melhor.

Ativista que sempre lutou pela vida, jornalista Patrícia Nunes está diante da morte

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E enquanto houver fôlego, seguirei fazendo o que sempre fiz: transformar medo em ação e dor em compromisso.

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