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Acadêmicos de Niterói “vai passar” levando “Lula lá” para a Sapucaí

Artistas da Comissão de Frente da Acadêmicos de Niterói fazem coreografia levando "Lula lá" para a Sapucaí; agremiação "vai passar" oficialmente às 21h45 | Alexandre Macieira/Riotur

Artistas da Comissão de Frente da Acadêmicos de Niterói fazem coreografia levando “Lula lá” para a Sapucaí; agremiação “vai passar” oficialmente às 21h45 | Alexandre Macieira/Riotur

André Freitas

Por André Freitas

Diretor-executivo e repórter do Folha do Leste, desde os anos 1990 cobrindo carnaval direto da Marquês de Sapucaí

Do rio de janeiro  • ÀS 14H02

 

A Acadêmicos de Niterói cruza a Ponte neste domingo (15) em direção ao Rio de Janeiro levando o presidente Lula como enredo para a Marquês de Sapucaí, onde vai passar desfilando e abrindo os desfiles de domingo às 21h45. Essa é a primeira vez que a agremiação desfilará no Grupo Especial do carnaval carioca.

Também inédito o feito da cidade de Niterói — agora com duas agremiações na elite — a Unidos do Viradouro, atual líder do ranking da Liesa, desfilará amanhã (16). A Rede Globo transmite o desfile em canal aberto.

Serviço essencial para o folião que sai de Niterói

Para quem planeja acompanhar a escola, o planejamento logístico é fundamental. Primeiramente, o horário: a concentração ocorre no setor 1 e a agremiação pisa na avenida exatamente às 21h45. Portanto, quem deseja observar a formação das alas deve chegar com antecedência ao Sambódromo.

Em relação ao deslocamento, a recomendação prioritária é o uso de transporte público. Antes de tudo, atravesse a Baía de Guanabara via Barcas (Praça XV) ou utilize as linhas de ônibus intermunicipais até o Centro do Rio. Em seguida, utilize o sistema de metrô.

A melhor opção para o folião é desembarcar nas estações Central do Brasil ou Praça Onze. Ambas garantem um fluxo organizado e contam com policiamento reforçado para o evento. Por outro lado, evite o uso de carros particulares, visto que haverá bloqueios viários rigorosos no entorno da Sapucaí e a oferta de estacionamento será mínima.

“Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”

Com a pretensão de fazer desse enredo que transforma biografia em espetáculo, a agremiação assume o risco de narrar um personagem vivo da política brasileira. Mesmo que sob o filtro do samba, e com toda licença poética à seu favor, o risco corresponde ao tamanho de sua ambição estética. Ao mesmo tempo, a escola de samba nem o entorno político de Lula dispensam a cautela jurídica. Principalmente após todas as polêmicas e tentativas de censura prévia criadas em torno do desfile.

Olê, Olá, Lula, Lula: samba está para Acadêmicos de Niterói como "Lula Lá" está para jingle do presidente, cuja ode vai passar na Sapucaí | Alexandre Macieira/Riotur

Olê, Olá, Lula, Lula: samba está para Acadêmicos de Niterói como “Lula Lá” para jingle do presidente, cuja ode vai passar na Sapucaí | Alexandre Macieira/Riotur

Já está definido que o presidente da República não desfilará. Há razões tanto relacionadas à segurança de Lula quanto aos riscos de judicialização de sua candidatura à reeleição. Contudo, ele estará assistindo a homenagem no sambódromo em um camarote até então não confirmado.

A voz de Dona Lindu: Do Sertão ao pau-de-arara

O ator Paulo Vieira vai representar Lula em uma de suas fases de vida. Por outro lado, a atriz Dira Paes viverá Dona Lindu, mãe do presidente. Inclusive, a narrativa do enredo se dá através da voz dessa mãe nordestina. Por amor,  ela abandonou o sertão em busca de uma vida melhor para os seus filhos.

Dira esteve no barracão da agremiação e demonstrou muito entusiasmo para a apresentação. A atriz virá com crianças representando o Presidente Lula e seus irmãos. é mais um nome confirmado em nosso desfile do carnaval de 2026. O ator representará o nosso homenageado em uma de suas fases de vida.

Diferentemente de biografias tradicionais, o samba-enredo é narrado por Eurídice Ferreira de Mello, a Dona Lindu. A letra descreve a travessia de “13 noites e 13 dias” em um caminhão pau-de-arara, transportando oito filhos de Garanhuns (PE) até o litoral paulista. Segundo a compositora Teresa Cristina, uma das autoras da obra, a motivação daquela jornada era a busca pela união da família.

Ademais, o impacto emocional do samba foi confirmado pelo próprio presidente. Ao ouvir a história sendo contada pela perspectiva de sua mãe, falecida em 1980, Lula emocionou-se profundamente. De acordo com relatos da equipe de composição, o presidente chorou copiosamente ao ver sua trajetória imortalizada na passarela do samba sob o filtro do afeto materno.

O simbolismo do Mulungu e a resistência brasileira

O título da obra faz referência ao mulungu-da-caatinga, uma árvore de flores avermelhadas onde as crianças do agreste costumavam brincar. Nesse sentido, a árvore simboliza a resistência e a esperança que florescem em solo árido. Para o presidente da escola, Wallace Palhares, o desfile busca o reconhecimento de uma história de superação, independentemente de inclinações políticas.

Além da trajetória pessoal, o samba evoca figuras centrais da luta pela democracia e contra a fome no Brasil. O texto cita explicitamente heróis da resistência, como:

  • Zuzu Angel e Rubens Paiva;

  • Wladimir Herzog e Henfil;

  • Betinho, o sociólogo que mobilizou o país contra a miséria.

Outro ponto alto da composição é a citação ao clássico “Vai passar”, de Chico Buarque. Tereza Cristina disse que inseriu a referência como um tributo à coragem do artista. Segundo ela, Chico que jamais se dobrou diante das autoridades durante os anos de chumbo.

Transparência: O financiamento do desfile de Niterói

Em conformidade com a transparência sobre o uso do dinheiro público, é fundamental esclarecer a origem dos recursos da agremiação. Contrariamente aos boatos que circularam nas redes sociais, o desfile da Acadêmicos de Niterói não terá financiamento pela Lei Rouanet. Mesmo que fosse o caso, não haveria ilegalidade alguma. Até porque estamos em um período democrático, ou não?

Como todas as demais agremiações fazem, a agremiação recebeu autorização para captar R$ 5,1 milhões. Mas a escola desistiu do mecanismo devido ao prazo exíguo para a captação junto às empresas.

Na verdade, em termos de recursos federais, a escola conta com o aporte de R$ 1 milhão, assim como todas as demais concorrentes, proveniente de um termo de cooperação técnica entre a Embratur e a Liesa. Tal repasse teve intermédio do Ministério da Cultura, visando promover o Carnaval como produto turístico internacional.

Vários estados e cidades já foram enredo de carnaval sem que questões eleitorais fossem debatidas com tamanha profundidade.

Niterói luta para se manter no Especial

No ano passado, o Folha do Leste antecipou o título da agremiação na Série Ouro quando ninguém a colocava nesse patamar. Numa análise estritamente carnavalesca, a agremiação tem de tudo para boas defesas de quesito e, dessa forma, permanecer na elite.

A Acadêmicos de Niterói carrega, sobretudo, o nome de uma cidade que está reconstruindo seu carnaval, outrora o segundo maior do Brasil.  Leva ainda a experiência e a confiança de pessoas  que já conhecem os bastidores do samba. Não à toa uma escola de samba daqui lidera o atual ranking da Liesa.  Agora, a escola enfrenta o desafio do protagonismo pelo enredo e os desafios de todas as agremiações encarregadas de abrir a noite de domingo.

Quando o refrão subir — “Vai passar nessa avenida mais um samba popular” — a agremiação não pedirá licença. Ela entrará com o surdo marcado e uma narrativa de memória. Em virtude desse contexto, Niterói não apresenta apenas um enredo; ela apresenta coragem, ritmo e o desejo de se consolidar entre as gigantes do Carnaval brasileiro.

 

André Freitas
André Freitas é diretor-executivo e repórter do Folha do Leste e da Brasil 21 Comunicação. Jornalista e radialista desde a década de 1990, é narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, com 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Possui ampla experiência na cobertura da editoria de política, em razão de funções exercidas nos poderes Legislativo e Executivo, com atuação nas Câmaras Municipais de Niterói, São Gonçalo e Campos dos Goytacazes, além da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e da Prefeitura de Niterói. Dirigiu por 15 anos a Rádio Absoluta, onde apresentou programas noticiosos diários e conduziu coberturas esportivas, incluindo mais de uma década acompanhando a seleção brasileira de futebol. Nesse período, esteve presente em duas Copas do Mundo e em uma edição dos Jogos Olímpicos. Trabalhou também nas rádios Campos Difusora (Campos/RJ) e Litorânea (ES). Exerceu o cargo de editor-chefe nos jornais Olho Vivo (Niterói/RJ) e A Tribuna (Niterói/RJ), além de atuar como colunista do jornal O Diário (Campos dos Goytacazes/RJ).

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